quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Reggio Emilia: como uma cidade italiana virou referência de educação

Reggio Emilia: referência na educação | Paolo Picciati

O modelo educacional de Reggio Emilia começou a ganhar destaque mundial em 1991, quando o jornal norte-americano Newsweek apontou uma pré-escola da cidade como uma das dez melhores escolas do mundo. Desde então, escolas da cidade italiana conquistaram a admiração de educadores. 
O diferencial do sistema é pensar nas crianças como indivíduos cheios de potencial e possibilidades para o futuro; já crianças com necessidades especiais e filhos de mães ou pais solteiros têm matrícula prioritária nas escolas da rede, sem precisar passar por processos de seleção. 
“A organização de tempos e espaços é fundamental para acolher as crianças em uma escola. O professor não se limita a ‘ensinar’, mas organiza os espaços escolares para garantir que as crianças vivenciem experiências significativas que precisam ser valorizadas”, afirma o italiano Andrea Pagano, educador formado em Ciência da Educação e em Ciência Pedagógica, pela Università degli Studi di Modena e Reggio Emilia (UNIMORE), em entrevista à Gazeta do Povo
Presente e futuro 
A abordagem incentiva os educadores a considerarem o que são as crianças no presente, e não o que podem se tornar no futuro. Isso se reflete em voltadas para a criação de laços entre as crianças e o aprendizado por meio de projetos adequados ao perfil do aluno, rejeitando modelos de avaliações e exames padronizados. 

O modelo surgiu após a Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de mulheres da região percebeu a falta de uma creche e começou a construir uma edificação com as próprias mãos, com pedras e madeira encontradas nas imediações. A transformação da construção improvisada em escola foi consolidada com o envolvimento do pedagogo Loris Malaguzzi, que formulou o modelo educacional com base nas ideias de Jean Piaget, Lev Vygotsky, John Dewey e Maria Montessori. 
A mudança deu certo e hoje a rede de Reggio Emilia conta com 35 pré-escolas, correspondentes a cerca de 40% das escolas públicas do município, que se conectam com mais de 30 redes internacionais de educação para o estabelecimento de colaborações entre pesquisadores e educadores. 
Nas escolas, professores constroem currículos específicos, e os pais dos alunos trabalham como voluntários juntamente com os educadores. Na metodologia adotada por eles, as aulas são construídas ao redor de projetos que integram diversas áreas, como arte, ciência e matemática. 
“Todas as escolas podem proporcionar aos adultos a oportunidade para pensar o espaço como algo diretamente relacionado ao seu trabalho. E, em todas as escolas, os adultos podem ter a coragem de dedicar maior atenção às competências que as crianças já possuem e de serem guiados pelos interesses e modo de olhar o mundo que elas expressam”, diz Pagano. 
Realidade nacional
Para Gisele Mantovani Pinheiro, diretora do colégio curitibano Amplação, que utiliza o método italiano, é possível adequar o modelo a realidade nacional. “Escolas brasileiras que se inspiram na abordagem conseguem ter um olhar mais cuidadoso para uma avaliação que valida competências que as crianças já possuem”, diz. 
Por meio desse fator de observação, o professor passa a criar possibilidades: “Assim é possível fazê-las aprender através da experiência e então focar em avaliações menos sistematizadas”, afirma Gisele.

Cinco países mais pobres que o Brasil com melhores resultados na educação

Alcançar níveis de qualidade educacional é uma tarefa árdua que requer tempo, planejamento e ações integradas. Boas colocações em rankings educacionais, claro, não vem de graça, exigindo investimentos gradativos. Um bom exemplo é a Coreia do Sul, que precisou se reconstruir após um período de guerra entre 1950 e 1953, e dedicou 10% de seu PIB (Produto Interno Bruno) à Educação por uma década. 

Alunos da Binitayan Elementary School, nas Filipinas: índices de alfabetização melhores que no Brasil. | U.S. Air Force

Mas também é fato que apenas dinheiro não traz resultados; abaixo listamos cinco países com poderio financeiro menor que o Brasil, mas que conseguiram índices educacionais próximos ou superiores aos brasileiros. 
Para o levantamento, utilizamos como parâmetro de desenvolvimento econômico o PIB com base na paridade do poder de compra, de acordo com lista da Global Finance (o Brasil ocupa a 84ª posição). Já o parâmetro para educação é o índice de alfabetização da UNESCO de 2015 (o Brasil atingiu 91,8%). Confira: 

Filipinas 

Índice econômico: 121ª posição 
Índice educacional: 96,3% 
A educação básica é pública e se divide em dois ciclos: ensino primário, obrigatório, dos 6 aos 12 anos de idade; e ensino secundário, facultativo, dos 13 aos 17 anos. Além disso, o ensino superior segue o padrão de bacharelados com 4 anos de duração. 
Na educação básica são ensinados três idiomas: inglês, filipino e o dialeto local da região em que a escola está localizada. Outro diferencial é o ensino, desde os primeiros anos, de Makabayan, uma área de aprendizado holístico que integra diversas habilidades e áreas de conhecimento, como economia, política, ética, cultura, estética e ensino vocacional. 

Equador 

Índice econômico: 106ª posição 
Índice educacional: 94,5% 
A educação básica tem 10 anos de duração – 1 ano de pré-escola, 6 anos de escola primária e 3 anos de escola secundária. O ensino primário é obrigatório e gratuito para crianças de 6 a 12 anos. O ensino secundário é dividido em dois ciclos de três anos cada: o ciclo básico é gratuito e obrigatório; e o ciclo diferenciado é facultativo, tem mensalidades e é voltado para habilidades específicas como computação, matemática, ciências e estudos sociais. Além da educação básica, os estudantes tem acesso a educação pós-secundária, que é vocacional e busca formar mão de obra qualificada. 

Colômbia 

Índice econômico: 91ª posição 
Índice educacional: 94,7% 

A partir de um ano de idade, as crianças tem acesso a creches e pré-escolas públicas. Aos 6, ingressam no ensino fundamental, que tem 6 anos de duração, seguido do ensino secundário básico, com 3 anos de duração. No ensino secundário, os estudantes tem 4 anos de educação pública obrigatória e 2 anos de educação vocacional facultativa, que oferece especializações voltadas para áreas técnica, agrícola, artística ou de negócios. Ao final das etapas obrigatórias da educação básica, todos os alunos devem passar por uma prova nacional para ter direito ao diploma. Para ter acesso ao superior eles precisam completar o ensino secundário vocacional. 
Dos países citados neste levantamento, a Colômbia é o único que participa do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) – e também no ranking organizado pela OECD tem resultados melhores que o Brasil. Em “leitura”, 425 contra 407 pontos; “matemática”, 390 contra 377, e também em “ciências”, área em que a Colômbia cresceu 28 pontos desde 2006, segunda maior evolução no período: 416 a 410. 

Bósnia e Herzegovina 

Índice econômico: 107ª posição 
Índice educacional: 98,5% 
A educação básica é gratuita e obrigatória dos 7 aos 15 anos de idade. Essa fase é priorizada pelo governo por ser considerada essencial para a educação cívica das diferentes etnias que vivem no país – depois da guerra, o foco da educação se voltou para a formação multiétnica, com a implementação de programas educacionais que promovem a reintegração das diferentes etnias e culturas do país. 
O idioma ensinado em cada escola varia de acordo com a composição étnica da região, podendo ser a língua croata, sérvia ou bósnia. Tanto o alfabeto latino quanto o alfabeto cirílico são ensinados. 

Bolívia 

Índice econômico: 122ª posição 
Índice educacional: 95,7% 
A fase gratuita e obrigatória é o ensino primário, que tem 7 anos de duração, para crianças de 6 a 13 anos de idade. O ensino secundário, dos 14 aos 17 anos, é facultativo e divide-se em dois anos de ensino tradicional e dois anos de ensino vocacional, ao final do qual é necessário um exame para obtenção do diploma técnico. 
Desde 2006, o governo boliviano começou a instituir uma “reforma educacional descolonizadora”, que busca valorizar questões indígenas e identidades culturais do povo boliviano.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Festival de Matemática movimenta escolas estaduais

Em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba, mais de 400 estudantes do ensino fundamental da Escola Estadual Maria Vidal Novaes participaram de atividades e oficinas de xadrez humano, dominó com caixa de leite, jogos matemáticos interativos de internet e cartazes com pinturas cubistas de artistas que utilizam ou utilizaram figuras geométricas em seus trabalhos, como o russo Wassily Kandinsky, o espanhol Pablo Picasso e o brasileiro Romero Brito.

As escolas da rede estadual de ensino participam, ao longo deste mês, de diversas atividades relacionadas ao Festival de Matemática, que faz parte do Biênio da Matemática 2017-2018. Durante o mês de agosto as escolas estaduais desenvolvem oficinas, apresentações, jogos e cursos que trabalham conceitos da disciplina de modo prático e criativo.

As atividades incluem caça ao tesouro, jogos matemáticos, xadrez humano, bingo matemático, oficinas de pipa, origami, circuito matemático e exposições de textos matemáticos.

As ações são acompanhadas pela equipe de Matemática do Departamento de Educação Básica (DEB) e dos 32 Núcleos Regionais e da Secretaria de Estado da Educação.

Em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba, mais de 400 estudantes do ensino fundamental da Escola Estadual Maria Vidal Novaes participaram de atividades e oficinas de xadrez humano, dominó com caixa de leite, jogos matemáticos interativos de internet e cartazes com pinturas cubistas de artistas que utilizam ou utilizaram figuras geométricas em seus trabalhos, como o russo Wassily Kandinsky, o espanhol Pablo Picasso e o brasileiro Romero Brito.

Antes de colocar a mão na massa, os alunos receberam em sala de aula todo o conteúdo matemático previsto no currículo escolar. “A principal contribuição dessas atividades foi desenvolver neles o raciocínio lógico para que consigam observar e colocar na prática o que aprendem nos livros”, disse a diretora Elizabeth Gozzo Bandeira.

A estudante Jéssica Valêncio, 15 anos, do 9° ano, desenvolveu junto com sua colega, a estudante Fernanda Schinitz, 16 anos, o blog “Festival de Matemática” para explicar a história da disciplina. “O objetivo do blog é desafiar os leitores a se aprofundar nos conteúdos matemáticos e desmistificar essa ideia de que a matemática é uma coisa chata como a maioria das pessoas pensa. Ela pode ser legal, sim”, disse Jéssica.

Seu colega, Matheus Gabriel Camilo Cunha, 14 anos, também do 9° ano, pesquisou e ajudou a confeccionar a oficina do xadrez humano. “Achei bastante interessante porque conseguimos abrir um espaço para os alguns que possuem certa dificuldade com a disciplina aprender mais de uma maneira interativa. É uma oportunidade diferente de ensinar e aprender matemática”.

GEOMETRIA – No Colégio Estadual do Campo Professora Maria Gomes Bizerra, no distrito de Yolanda, em Ubiratã (no Centro Oeste), os estudantes do 6º, 7º e 8º anos participaram da oficina de “Geometria em Dobras”, na qual os alunos foram desafiados a produzir figuras geométricas usando conceitos matemáticos vistos em sala de aula. “A intenção foi estimular o aprendizado da Matemática de forma lúdica e significativa”, explicou a professora Rosemeire Gomes.

No município de São José da Boa Vista (Norte Pioneiro), os estudantes do Colégio Estadual Maria Isabel Guimarães, Escola Estadual do Campo Maria Anésia Dias e Escola Estadual Newton Sampaio promoveram na terça-feira (22) diversas atividades que proporcionaram aos estudantes práticas pedagógicas que estimularam o aprendizado matemático.

Além dos estudantes, as oficinas envolveram as equipes diretivas e pedagógicas, professores funcionários. Foram desenvolvidas oficinas de construção de sólidos geométricos, String Art, xadrez humano, exposição modelagem matemática, como, por exemplo, ferramentas na construção de móveis utilitários e apresentação da Dança do Bambu – relacionando conteúdos de geometria.

Em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba, mais de 400 estudantes do ensino fundamental da Escola Estadual Maria Vidal Novaes participaram de atividades e oficinas de xadrez humano, dominó com caixa de leite, jogos matemáticos interativos de internet e cartazes com pinturas cubistas de artistas que utilizam ou utilizaram figuras geométricas em seus trabalhos, como o russo Wassily Kandinsky, o espanhol Pablo Picasso e o brasileiro Romero Brito.

A estudante Jéssica Valêncio, 15 anos, do 9° ano, desenvolveu junto com sua colega, a estudante Fernanda Schinitz, 16 anos, o blog “Festival de Matemática” para explicar a história da disciplina. “O objetivo do blog é desafiar os leitores a se aprofundar nos conteúdos matemáticos e desmistificar essa ideia de que a matemática é uma coisa chata como a maioria das pessoas pensa. Ela pode ser legal, sim”, disse Jéssica.

FONTE:http://www.educacao.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=14894&evento=3844

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Um convite à imaginação infantil

Ao pensarmos em uma criança, logo nos vem a imagem dela brincando no jardim de casa, ou deitada na grama lendo uma história, ou ainda jogada no sofá com a cabeça voando em seus sonhos…
Brincar, sonhar, imaginar. Três ações tão íntimas ao universo infantil. Mas como podemos estimular ainda mais a imaginação de nossas crianças? Mais do que isso, por que é tão importante uma imaginação fértil nessa fase da vida?
Quando pequenos, temos o costume de brincar e, também, de ouvir histórias, contadas pelos adultos. Dois hábitos que sempre foram muito comuns, mas que vêm ficando esmaecidos em nossas memórias, esquecidos nas gavetas do tempo.
Ainda bebês, os pais começam a estimular a imaginação dos filhos ao lhes contarem histórias e brincarem com eles. Por meio de vários personagens e de muita fantasia, a criança vai tocando o mundo a sua volta, explorando-o devagar, passo a passo, aprendendo a partir do imaginário que vai exercitando.
Ao inventarmos situações, estimulamos a nossa criatividade, criamos um universo próprio em que experimentamos a realidade e, também, podemos transformá-la. Afinal, a vida nasce no imaginário, o mundo dos sonhos precede a realidade. A criança que nunca foi a uma fazenda, mas brinca de fazendinha, imaginando como deve ser aquele lugar; ou aquela que não tem irmãos, mas cria um irmãozinho em sua fantasia, podendo assim experimentar a companhia fraternal; ou ainda a outra que sonha um dia ser professora e brinca com seus amigos de escolinha, provando o gosto de ensinar.
Através da imaginação, as crianças têm o seu primeiro contato com o real, com situações que ela poderá um dia vivenciar. Imaginar é poder experimentar algo antes mesmo que venha a acontecer, sentir o sabor daquilo que ainda não ocorreu, isso nos dá mais habilidade para lidar com algumas situações em nossas vidas.
Hoje, não é incomum chegarmos a um parque ou mesmo a uma escola e encontrarmos crianças vidradas em seus celulares, sem olharem sequer para os lados. Nada de brincadeiras ou leituras, apenas jogos e Internet. Logo, cabe a nós, pais e professores, proporcionarmos vivências em que as brincadeiras e as histórias voltem a habitar o universo infantil, pois assim vamos dar asas à imaginação de nossas crianças, o que nos permite perceber seus pensamentos e sentimentos diante de diversas situações, sendo muito importante para o seu processo de aprendizagem e de amadurecimento.
A imaginação na infância trará um elemento importante para o desenvolvimento do indivíduo: a criatividade. Em um mundo que demanda o poder imaginativo dos adultos para solucionarem difíceis problemas em seu cotidiano, justamente a criatividade é algo que vem se perdendo em meio a tantas tecnologias nos dias atuais. As crianças sabem jogar vídeo-game, assistir aos vídeos no Youtube, postar fotos no Instagram, mas parece que não sabem mais brincar, criar histórias, perdem o gosto pela fantasia e pelo que ela pode lhes proporcionar; o que acaba refletindo-se no desempenho escolar, pois uma criança que não imagina, tem dificuldades para se concentrar em uma leitura, para escrever bons textos, para compreender aspectos abstratos de certos conteúdos e até mesmo para ter empatia em seus relacionamentos.
Sendo assim, temos que permitir que a criança de hoje possa continuar vivenciando a infância repleta de imaginação, com brincadeiras e histórias que lhe proporcionem o contato com a fantasia, algo tão importante para a nossa formação, pois como dizia o escritor Julio Verne, “Tudo aquilo que uma pessoa pode imaginar, outra poderá torná-la real”.
*Artigo escrito por Ana Rapha Nunes, escritora infanto-juvenil, autora dos livros “Mariana” (ed. Inverso), “Lucas, o garoto gamer” (ed. Inverso), “A noite chegou… e o sono não vem” (ed. Franco) e “A Lua que eu te dei” (ed. Appris). Especialista em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, a autora, que mora em Curitiba, visita várias escolas, abordando a importância da literatura para o público infanto-juvenil. Ana Rapha é colaboradora voluntaria com o Instituto GRPCOM no blog Educação e Mídia.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Bullying, exposição e golpes: o papel das escolas diante dos riscos da internet


Em 2015 uma estudante de 15 anos de Itanhaém, no litoral de São Paulo, pediu para ser transferida de escola após alguns colegas de classe compartilharem por WhatsApp montagens que a humilhavam. Na época, a diretoria não acreditou na aluna, o que intensificou os ataques dentro da escola – meses se passaram até ela e a mãe conseguirem provar após terem acesso às mensagens, e então a troca foi realizada. 

Já em outro caso que ocorreu em uma escola pública de Brasília, há pouco mais de um ano, a humilhação envolveu 10 estudantes que foram expostas em uma montagem em vídeo com conotação sexual; fotos utilizadas no vídeo foram retiradas do próprio perfil nas redes sociais das vítimas, desde selfies na escola a fotos de biquíni. 
A internet, parte importante da vida dos jovens, traz riscos com os quais eles não estão preparados para lidar. E, além da família, a escola tem um papel fundamental a desempenhar nessa área.
Risco calculado? 
Crianças hoje em idade escolar já nasceram em um mundo que não se desconecta. No Brasil, a última pesquisa do TIC Kids Online Brasil revelou que 79% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos estão ativas na internet – número que representa 23,7 milhões de jovens, sendo que 85% deles acessam pelo celular. 
Com os aparelhos móveis elas têm mais privacidade ao navegar online, sem necessariamente ter a mediação dos responsáveis. Daí surgem os perigos.
Para Rodrigo Njem, psicólogo e diretor de educação da ONG SaferNet Brasil, entre os principais problemas e riscos do uso da internet no ambiente escolar estão a “distração do aluno, cyberbullying (intimidação ou discriminação), exposição da intimidade e outras questões de privacidade, como roubo de dados”. 
Um estudo divulgado ano passado pela NASUWT, um dos sindicatos de professores do Reino Unido, descobriu mais da metade dos professores estavam ciente de alunos que praticavam “sexting” (envio de imagens íntimas) dentro da escola. A maioria dos incidentes envolveu alunos de 13 a 16 anos, mas os professores disseram estar cientes da prática também na escola primária, com alunos de até sete anos. Metade dos docentes afirmaram que encontraram alunos usando mídias sociais para enviar insultos ou praticar bullying. 
Cristina Sleiman, presidente da Comissão Especial de Educação Digital da OAB-SP, alerta que a internet permite ao aluno contatar pessoas que estão fora da escola. “Em caso de uso aleatório para comunicação externa, até aliciamento, a escola pode acabar responsabilizada. Por isso devem existir regras claras sobre o uso; eles têm que entender que é um risco para eles mesmos a não utilização adequada”. 
Influenciando o ambiente 

Uma pesquisa pela London School of Economics mostra que, após as escolas proibirem os celulares, o desempenho dos estudantes melhorou. Mas especialistas acreditam que já não é mais possível ter um controle completo sobre os dispositivos. 
“Se falamos em educação e desenvolvimento, você não poder proibir tecnologia, por isso o melhor caminho é educação digital: educar para que crianças e adolescentes saibam usá-la de maneira ética e segura”, diz Cristina. 
Na Escola da Vila, instituição de ensino particular em São Paulo, alunos a partir do 6º ano podem levar o celular. Em alguns casos os dispositivos são incluídos em atividades escolares e contam com uma rede Wi-Fi livre para uso. Segundo Helena Mendonça, Coordenadora de Tecnologias Educacionais, há, porém, um controle para que eles não o utilizem durante a aula. 
”Uma situação em que uma aluna posta uma foto inadequada de uma colega na rede social, por exemplo, ou um aluno acessa indevidamente a conta de outro, gera conflitos na escola. A partir dos casos que acontecem, propomos uma discussão e a equipe de orientação educacional acompanha os envolvidos e desenvolve campanhas que são direcionadas para toda a escola”, conta. 
Problema global 
A importância da escola para a educação digital do aluno ganha força em todo o mundo. Em junho o Google lançou nos EUA o projeto “Be Internet Awesome” (“Seja Incrível na Internet”, em tradução livre), que consiste em uma plataforma informativa para pais e professores com princípios para uma internet segura. Para as crianças há um jogo interativo chamado “Interland”, em que elas devem combater hackers, phishers (golpistas online), oversharers (aqueles que compartilham informações em excesso na rede) e valentões, praticando as habilidades que precisam para serem bons cidadãos digitais. O objetivo é fazer com que os jovens tomem decisões inteligentes por conta própria. 
De acordo com Sonia Livingstone, da London School of Economics and Political Science, mesmo que sejam nativas digitais, “crianças não necessariamente sabem tudo sobre como usar a internet”. Sonia afirma ainda que a visão dos adultos europeus mudou nos últimos anos, com uma maior percepção de que eles devem ser responsáveis por manter as crianças seguras na internet, mas que elas também devem desenvolver habilidades para se manterem seguras por conta própria. 
A questão de uma idade mínima para a criança usar livremente a internet surge, então, naturalmente. Para Nejm um comparativo simples pode ajudar a responder a questão. “A criança tem capacidade de sair sozinha na rua? Ela já tem estabelecidos os parâmetros de segurança, de autocuidado e autoproteção? Ou ela ainda tem certa dependência? Se ela não tem maturidade para ficar sozinha no mundo real, o mundo digital é tão grande ou maior que o bairro onde ela mora. Pais e educadores precisam ter sempre essa referência”, diz.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Como saber se um professor é ruim?


O vínculo positivo com o aprendizado é cultivado principalmente pela relação entre o aluno e o professor, desde os primeiros anos de escola. Porém, no dia a dia, essa ligação pode ser abalada por algumas atitudes que ficam, na maioria das vezes, na conta do educador.
Mas é importante não tachar simplesmente um professor de “ruim” quando ele perde a mão em algum ponto. Sob pressão, salários baixos e acúmulo de tarefas burocráticas, a profissão é repleta de estigmas. “E, contraditoriamente, exige profissionais pacientes, inteligentes e que tenham respostas para tudo”, observa Thalita Tomé, coordenadora pedagógica do programa Ensina Mais Turma da Mônica.
Além disso, a constante inquietação e autocrítica são características importantes para todo bom professor, que vai se preocupar diariamente com a melhor forma de ensinar. Algumas escorregadas comportamentais, porém, podem atrapalhar essa dinâmica. E todos saem perdendo.
“O objetivo do professor é mais do que ensinar bem, é ensinar o estudante a aprender. Atitudes contrárias, que não facilitam a relação com o aluno e o conhecimento, vou ter problemas com a aprendizagem. É preciso cuidar muito dessa relação vincular”, afirma Evelise Portilho, especialista em psicologia da educação e professora de Pedagogia da PUCPR.
Veja abaixo alguns sinais de que o professor precisa rever suas práticas (o interessante é que alguns valem também para o aluno que anda merecendo nota baixa).

1) Questões burocráticas vêm antes do conteúdo das aulas 
Neste item, o sistema é determinante, já que costuma envolver o educador em inúmeras tarefas burocráticas. Além das pilhas de provas e trabalhos por corrigir, muitas aulas em diferentes escolas para completar o orçamento, o professor precisa preencher documentos que tomam um tempo precioso que poderia ser aplicado em preparar as aulas com mais calma ou em formação. Planejamento cuidadoso pode ajudar a equacionar o problema de falta de tempo. “Quando a turma não está correspondendo às expectativas, vale pensar: será que é o conteúdo ou é a forma com que eu estou passando para os alunos?”, sugere Cíntia Cargnin Cavalheiro Ribas, coordenadora do curso de pedagogia da Opet.

2) Falta de planejamento 
O professor se perde na falta de planejamento e chega para as aulas sem muito repertório. Não leu o conteúdo a fundo, não preparou a aula e vai tentar improvisar em cima da hora. As atividades também brotam na pressão da necessidade de avaliar o aluno, mas sem método ou propósito claros. Segundo Evelise Portilho, indícios de que o professor está um tanto perdido podem ser percebidos por material enviado por ele para casa. “As instituições que formam o corpo docente no Brasil não trabalham organização e planejamento. É preciso que o professor busque essas ferramentas para conseguir ter uma rotina mais tranquila”, avalia Thalita.

 3) Diálogo dificultado com alunos e pais 
Comunicação entre o educador e a família de seus estudantes é primordial. Se o educador coloca muitas barreiras para esse diálogo, mau sinal. Quando, além disso, a comunicação também for truncada, ou pior, desestimulada durante as aulas, o ambiente de aprendizado também fica comprometido. Que aluno vai se sentir confortável para sanar dúvidas ou pedir referências a respeito de um assunto pelo qual se interessa? A recomendação é insistir no contato e se, mesmo assim, o professor for avesso ao diálogo, pedir que a direção ou coordenação pedagógica faça esta mediação. Ficar atento à política da escola antes da matrícula também é indicado. “Há instituições mais fechadas, em que os professores são proibidos de conversar na porta da escola, por exemplo. Às vezes o problema é da instituição”, diz Cíntia.

4) Conteúdo desatualizado 
Por mais jovens que os alunos sejam, eles conseguem perceber, nos gestos do professor, seu domínio (ou falta de) sobre o conteúdo que está ensinando. “As emoções são expressas no físico e as crianças conseguem dizer quando um professor não está bem ou está pouco à vontade. Isso interfere bastante na disposição deles”, diz a professora da PUCPR.

5) Atitude combativa com os alunos 
O professor tem uma atitude mais agressiva e não abre espaço para interrupções ou dúvidas. O que ele expõe é lei e o aluno fica acuado diante da postura enérgica do mestre. “Ansiedade, em alguma medida, é interessante para o aprendizado porque obriga a ser proativo. Mas quando o medo é muito grande, paralisa”, avalia Evelise. De acordo com a professora, ao contrário do que se acredita, estudos têm mostrado que professores jovens tendem a ser mais autoritários do que os mais experientes. “Quando há uma insegurança no manejo da profissão, essa postura arredia busca evitar a exposição de eventuais falhas”, afirma.

 6) Jogar a responsabilidade da aprendizagem para a família 
Os pais devem observar as devolutivas do professor para avaliar se ele não está colocando nas mãos da família a responsabilidade da aprendizagem da criança. “Há casos em que o profissional relata dificuldade do aluno. Mas, após testes, fica provado que, na verdade, não houve adequação metodológica em sala de aula”, exemplifica Cíntia.

7) Não levar em conta diferentes tipos de aprendizagem 
Ter em mente as particularidades de cada aluno é praxe do professor e é preciso buscar estratégias metodológicas que atendam a essa diversidade dentro de uma sala de aula. “É preciso estar aberto a mudanças e isso só se consegue com atualização. Como professora, percebo que preciso disso quando minhas expectativas não estão sendo atingidas. Os alunos estão agitados demais e eu não consigo fazer o meu trabalho ”, afirma Cíntia.

FONTE:http://www.gazetadopovo.com.br/educacao/como-saber-se-um-professor-e-ruim-eb3a6iy9lfdnthtvwt4qvn05g


De que maneira os professores podem ensinar melhor?

Erros e acertos em sala de aula não precisam ser guardados a sete chaves. Expor a própria aula para a avaliação de colegas e, em alguns casos, da família dos alunos, pode ser a solução para melhorar a performance como educador. O sistema de mentoria, pelo qual o desempenho dos professores é acompanhada de perto pelas instituições, não é realidade para a ampla maioria da rede de ensino no Brasil (veja exemplos abaixo ), mas pode ser uma etapa valiosa para a formação continuada dos mestres.
A figura do pedagogo, que, no dia a dia das escolas é disputadíssima, seria responsável, a princípio, por orientar os professores. Na realidade do ensino municipal de Curitiba, por exemplo, os professores têm 1/3 de sua carga horária semanal reservada para planejamento de aulas. “Mas eles acabam não tendo essa prática de de discutir com os colegas, com um planejamento coletivo, em que se falasse de soluções comuns”, afirma Verônica Branco, professora de prática de ensino do setor de Educação da UFPR. 
Nesse contexto, até mesmo a participação dos pais nas aulas não seria descartada. “Isso teria que ser planejado com a pedagoga da escola, mas é possível. Se o professor é bom, tem um planejamento que não vai ser atrapalhado pelo acesso da família”, diz Verônica Branco. 
Coordenador do GEPEC (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada) da Unicamp, o professor Guilherme do Val Toledo Prado acredita que a abordagem é válida, mas reforça que é preciso haver uma preparação para esse acompanhamento sistemático do trabalho do professor. “Quem tem que dar o tom dessa parceria são os interessados no processo, que são os professores e os alunos. Um médico não seria acompanhado pela família em uma cirurgia se não fosse avisado e preparado para isso”, compara. “Essa participação tem que ser construída sem penalização, sem um clima de fiscalização. Mas pode ser uma boa abordagem. Um pai dentro da escola vai ver, por exemplo, que o professor trabalha com 40 alunos, dos quais quatro têm necessidades especiais. E talvez conclua que esse educador precisa de ajuda em sala de aula”, diz. 
Na opinião de Ricardo Antunes de Sá, professor do setor de Educação da UFPR, esse “acompanhamento” de colegas ou comunidade só deveria ser feito a pedido do educador. “Eu acho que na instituição privada o professor poderia se submeter a uma ‘mentoria’. Na escola pública isso seria muito mais difícil e enfrentaria profunda resistência. Para mim, o caminho ou a estratégia de formação continuada do professor precisa ter uma dimensão institucional”, acredita. 

Aprender a ensinar 

Com a absorção das teorias construtivistas no sistema de ensino, o papel do professor como principal figura do cenário do aprendizado foi revisto. A ‘habilidade’ do educador deixou de ser o único fator para explicar uma experiência bem-sucedida dentro da sala de aula e a figura do estudante é, neste contexto, bem menos passiva na construção do próprio conhecimento. Mesmo assim, ainda que para os recém-formados,  a antiga mentalidade ainda permeia essa formação. 
“Aprender a ensinar” passa também por uma intensa busca por aperfeiçoamento. Ricardo Antunes de Sá, professor do setor de Educação da UFPR, não acredita que ser ‘observado’ pelos colegas seja necessário para isso, mas o estudo coletivo precisa ser estimulado. “As escolas devem ter um programa de formação e qualificação profissional permanente. Sem dúvida que o professor precisa de suporte, de apoio e de incentivo permanente por parte das mantenedoras (públicas e privadas). Isso deveria ser uma ‘lei’ para todas as instituições de ensino”, afirma. 

Experiências 

O sistema de mentoria já é aplicado no Colégio Sesi desde 2005. O professor que entra na rede passa por uma formação sobre a metodologia e também por uma prova que avalia a força dos conteúdos que vai ensinar. Caso seja detectada alguma fragilidade, o professor passa por um treinamento que vai reforçar os currículos que vão garantir que ele tenha o domínio do conteúdo. 
Em sala de aula, uma pedagoga vai acompanhar esse desempenho semestralmente. “Há um checklist que vai verificar o domínio do professor, a relação dele com os alunos, o trabalho dele nas equipes, a condução de plano de aula dele. Ao final, o professor terá uma nota e um feedback sobre os pontos fortes e o que precisa ser aperfeiçoado”, diz Lilian Luitz, gerente de educação básica e continuada do Sesi no Paraná. 
Os professores também são avaliados pelos alunos da rede (que atende ensino fundamental e médio), que vão atribuir notas que serão confrontadas com a do pedagogo. Somadas as notas, o Sesi saberá em que pontos precisa apoiar e fortalecer o educador. A hora permanência, em que é feito o planejamento, tem momentos de estudo em grupo e individual, com o pedagogo. Palestras e formações pontuais, como recentemente foram feitas sobre o jogo Baleia Azul, bullying e depressão também fazem parte desse apoio. 
De acordo com Luitz, isso já se tornou uma cultura na rede. “A entrada do pedagogo em sala é uma prática, ele acaba se habituando e a abordagem é muito construtivista”, afirma a gerente. 

Outro exemplo de acompanhamento é o feito pelo Colégio Militar de Curitiba (CMC), que conta com corpo docente composto por 46% de professores militares. Em nota, o CMC explicou que a coordenação pedagógica assiste às aulas e preenche uma ficha que avalia a prática do professor. “Os pontos fortes são enaltecidos e as oportunidades de melhoria são discutidas, a fim de aprimorar sua prática”.