quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O passe livre estudantil é injusto com os mais pobres?

A fagulha que iniciou os protestos de junho de 2013 país afora foi a queixa contra o aumento da passagem  de ônibus em São Paulo. Foi quando o Movimento Passe Livre, organizador das primeiras manifestações, chegou ao primeiro plano do noticiário nacional.
De lá para cá, apesar de a pauta ter perdido força na imprensa, a proposta avançou em algumas cidades. Mas, para economistas, a conta é simples: alguém paga pela gratuidade. E, se o benefício é bancado com recursos públicos, o contribuinte (inclusive o mais pobre) é quem arca com esse custo.
Origem
Fundado em uma plenária no Fórum Social Mundial, em 2005, em Porto Alegre, o Movimento Passe Livre (MPL) ganhou notoriedade na campanha pela passagem gratuita para estudantes em Florianópolis, no começo da década passada. 


A organização se diz autônoma, apartidária, horizontal e anticapitalista. Francisco Ximenez, de 21 anos, integrante do movimento em São Paulo, diz que se juntou ao grupo para protestar contra a “precariedade dos coletivos em São Paulo”. “Pegar ônibus superlotados todos os dias, pagando uma tarifa abusiva, fez eu entender que só construindo a luta no meu bairro e na cidade como um todo transformaria o transporte", conta. 
Desde 2007, diz Ximenez, o MPL defende a tarifa zero universal – ou seja: a gratuidade da passagem para toda a população, não só para estudantes. 
Apesar de 2013 ter sido o auge do movimento, ele garante que nada mudou. “É uma ilusão pensar que aquilo vai se reproduzir todos os anos, mas a luta não se enfraqueceu.”
Diego Soares Thiago, de 28 anos, também garante que o MPL segue forte. “Estamos nas ruas, nunca saímos dela. Fazemos panfletagem, debates e continuamos a dar aulas públicas. São as nossas atividades”, afirma.
 | ANTONIO COSTAANTONIO COSTA
As vitórias do movimento
Após meses de protestos do MPL, o então prefeito de São Paulo Fernando Haddad anunciou o passe livre estudantil no fim de 2014. O benefício, que começou a valer no início de 2015, abrange ônibus, metrô e trens e vale para estudantes das redes municipal, estadual e federal, além universitários de faculdades particulares que têm ProUni e Fies e alunos de escolas particulares com renda per capita inferior a um salário mínimo e meio. Segundo a São Paulo Transporte (SPTrans), cerca de 800 mil jovens possuem cotas liberadas do passe livre. 
No Rio de Janeiro, o privilégio, que já valia para alunos de primeiro e segundo grau das redes municipais e estaduais, foi aumentado em 2014 para atender os universitários. A Secretaria Municipal de Transportes não abriu os gastos com a gratuidade, mas afirma que o valor é diluído no valor integral da passagem para garantir que a cidade não tenha prejuízo. Ou seja: o passageiro regular de ônibus banca o transporte gratuito de todos os universitários, independentemente da renda.
A ideia também passou a valer, em diferentes formatos, em outras capitais.  A prefeitura de João Pessoa implementou o programa em março de 2013. Cada aluno recebe apenas duas passagens diárias, uma de ida para a escola e outra de volta para casa. 
Em agosto do mesmo ano, foi a vez de Goiânia. Segundo Leonardo Felipe, superintendente da Juventude da Prefeitura, o programa custa mensalmente entre R$6 milhões e 8 milhões e atende 97 mil estudantes.
Ele assegura que há fiscalização constante contra fraudes. “Já tivemos casos de gente que empresta o cartão para pais e amigos, mas não pode. Além disso, temos de verificar se as linhas informadas pelo estudante são as que ele realmente está utilizando.” 
No Distrito Federal, onde a gratuidade começou a valer em 2010, também houve problemas parecidos.  De acordo com o departamento de Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTRANS), há uma inspeção em torno de declarações de matrícula falsas, pessoas indevidamente cadastradas como estudantes, cadastro de escolas fictícias e o uso do cartão por terceiros. Atualmente, o custo para o governo gira em torno de R$ 22 milhões por mês.
Em Campo Grande e Cuiabá, o benefício já é concedido há mais de 15 anos.
Custo para o contribuinte
Roberto Piscitelli, economista e professor de Finanças Públicas da Universidade de Brasília (UnB), diz que, apesar de o passe livre estimular o uso do transporte público, o tema deve ser abordado de forma mais objetiva e transparente.
“É uma grande discussão. Se esse subsídio é concedido ao usuário, de alguma forma alguém tem de bancar essa diferença", analisa. Para ele, é preciso deixar claro quem irá financiar esse privilégio – e de que forma. “É possível discutir se isso deveria estar nas mãos da iniciativa privada ou seria melhor que fosse explorado por uma entidade governamental”, afirma.
No entanto, para o especialista, não há uma resposta definitiva sobre o tema – é preciso analisar caso a caso. “Não consigo ver se o melhor para Brasília é o mesmo para São Paulo, por exemplo. A configuração geográfica e os fluxos são completamente diferentes”, diz.
Já Másimo Della Justina, professor de Ciências Econômicas da PUCPR e também economista, é direto sobre o responsável por arcar com os custos da gratuidade: “Quem sempre paga a conta acaba sendo o contribuinte, seja do município, do Estado ou da federação”.
Ele explica que às vezes o efeito colateral pode prejudicar quem mais precisa. “É possível que um estudante da classe média não pague uma passagem, mas essa é paga por um contribuinte pobre. Nesse sentido é uma injustiça social invertida, porque uma pessoa que teria capacidade de assumir com o gasto não está pagando porque uma mais pobre que ela está.” 
Segundo o docente, é por essa e outras razões que a proposta não ganha força no plano nacional: “É impossível. Não há recursos para se dar esse luxo. Não podemos brincar de Dinamarca e Noruega, enquanto ainda temos uma renda de um país em desenvolvimento. Em níveis nacionais, é uma utopia achar que todo mundo vai ter passe livre”. 

Em sala, professora zomba de “pobretões falando mal do socialismo”

Uma professora de Cascavel (PR) foi flagrada em vídeo ironizando os “pobretões” e “pés-rapados” que são contra o socialismo.

 |
Durante uma aula de filosofia para uma turma do 1º ano do ensino médio, ela afirmou que os ricos querem permanecer no poder para “garantir a preservação da sua riqueza”. 
O caso aconteceu em maio, no Colégio Estadual Padre Carmelo Perrone, mas as imagens só foram divulgadas recentemente na internet.
“Em nenhum momento ele quer dividir a sua riqueza. Aí tu vê uns pobretão (sic) falando mal do socialismo. Quem deveria falar mal do socialismo? Porque quem tem coisas para dividir? Eles (os ricos)”, afirma.
A professora prossegue debochando dos “pobres” que se opõem ao socialismo. “Aí o pobre diz assim ‘Tem que acabar com os socialistas’. O cara paga aluguel, o desgraçado!” , afirma ela.
“Pode começar a acompanhar esses caras no Facebook para você ver se não são uns pé-rapados desgraçados. Não têm onde cair morto, têm terra embaixo da unha, e são contra a divisão da riqueza”, diz.
As imagens foram registradas pelo aluno Matheus Eduardo Alonso. Ele explicou à Gazeta do Povo que casos como esse são muito comuns na escola. Tanto que o flagrante surgiu por acaso: ele estava testando a câmera nova pouco antes do fim da aula e acabou fazendo o vídeo da pregação ideológica.
“É tão comum como tomar água. Esse vídeo não mostra 0,001% do que eu presenciei”, afirma Matheus, que já não é aluno da escola.
No vídeo, é Matheus quem contesta a professora: ele lembra que ela tem um Azera – carro da Hyundai que custa até R$ 161 mil de acordo com a tabela Fipe. A professora responde apenas que o veículo é “usado”. O aluno rebate e diz que o veículo é de 2017.  Pela tabela, a versão mais antiga do carro (modelo 2011) está avaliada em mais de R$ 60 mil. 
A Gazeta do Povo procurou a professora que aparece nas imagens, mas ela não respondeu os pedidos de entrevista. 
O Núcleo Regional de Educação de Cascavel também foi procurado e prometeu se pronunciar sobre o caso.

Como o Japão conseguiu dar educação de qualidade a ricos e pobres

De acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Japão é o país com o maior nível de igualdade na educação, quando comparado a outros países com índices de desenvolvimento similar.
No país asiático, a grande maioria dos estudantes das classes sociais mais baixas tem acesso a educação de qualidade equivalente àqueles de classes sociais mais altas - segundo dados da própria OCDE, apenas 9% da variação de desempenho entre os alunos é ocasionada por diferenças socioeconômicas. 
Além disso, o Japão apresenta um dos menores índices de evasão: 96,7% dos jovens terminam o ensino médio; a média dos países analisados pela OCDE é de 76%. No Brasil, o índice é de 46%. 
Uma das explicações para os  bons resultados é a distribuição de professores altamente capacitados para áreas diversas do país, o que cria um equilíbrio no nível de ensino entre áreas urbanas e rurais, pobres e ricas. “Há muitos esforços para redirecionar os melhores professores e recursos para os estudantes mais desprivilegiados”, diz Andreas Schleicher, responsável pelo trabalho da OCDE em educação e desenvolvimento. 
Mais experiência, maiores desafios 
Essa abordagem parte das outras esferas da sociedade e do governo: no país, a falta de oportunidades é vista como responsabilidade de todos. Como resultado, crianças japonesas que crescem em famílias mais pobres têm maiores chances de mobilidade social na vida adulta, quando comparadas às de outros países desenvolvidos, como os Estados Unidos. 
O sistema de realocação de professores é um dos principais motivos por trás da igualdade do sistema educacional japonês: docentes no Japão não são contratados por escolas específicas, mas por províncias, que podem mudar o posto de trabalho do professor a cada três anos. 
Já o sistema de contratação por província é similar ao modelo brasileiro, em que as Secretarias de Estado da Educação fazem concursos e processos de seleção para uma região específica. Mas enquanto no Brasil os docentes contratados são alocados para escolas de modo aleatório, no Japão as províncias analisam as demandas de cada escola e escolhem os profissionais mais alinhados a cada necessidade. 
As realocações são feitas com maior frequência no começo da carreira, e diminuem conforme o profissional adquire mais experiência. A rotatividade nos primeiros anos de trabalho permite que os professores adquiram experiências diversas, em escolas com perfis distintos, o que os deixa mais preparados para desafios de ensino e aprendizagem. 
Professores mais experientes são priorizados pelas províncias em contextos mais desafiadores e direcionados para as escolas que mais precisam evoluir. Eles permanecem nelas por mais tempo para que as mudanças sejam efetivas. 
Gerindo recursos 
A mesma lógica se aplica à distribuição dos recursos públicos direcionados para educação. O volume de investimento é proporcionalmente menor do que em outros países desenvolvidos: o Japão investe 3,3% do seu PIB em educação, contra uma média de 4,9% dos países da OCDE. O país asiático gasta menos do que os Estados Unidos – são US$ 8,7 mil por aluno, contra US$ 10,9 mil nos EUA. 
A diferença está no modo como a verba pública é distribuída: escolas têm infraestrutura enxuta, com construções simples e materiais econômicos, como livros impressos em papel simples. Os custos com pessoal também são diminuídos com equipes menores – a limpeza, por exemplo, é feita pelos próprios alunos e professores. A gestão escolar também é simplificada, com apenas um diretor e alguns vice-diretores em cada escola, sem cargos intermediários entre eles e os professores. 
Como resultado dessa simplificação, províncias podem pagar salários mais altos para os professores: o rendimento  médio dos docentes na educação básica é de US$ 4,1 mil por mês – maior do que a média de US$ 3,7 mil dos países da OCDE. 
O valor médio corresponde quase totalmente ao salário recebido pela maioria dos professores: os salários, que são pagos conjuntamente pelo governo federal e pela administração local, não variam muito entre as regiões do país, mesmo com as diferenças de custo de vida entre as áreas urbanas e rurais. Como consequência, a realocação de profissionais para áreas rurais e regiões mais pobres desperta maior interesse por suas vantagens financeiras. 
Modelo autônomo 
O modelo de ensino japonês também contribuiu para o sucesso do seu sistema. Lá, os professores têm maior autonomia sobre os planos de ensino para o ano letivo, e são incentivados a compartilhar experiências com os outros docentes, que analisam e oferecem sugestões. 
A troca de conhecimento entre os profissionais pode ser multidisciplinar, o que transfere o foco do ensino para a resolução de problemas, diferentemente da abordagem ocidental tradicional de priorizar conteúdos específicos em cada disciplina. 
Essas particularidades, de acordo com Schleicher, constroem um sistema educacional que apresenta resultados concretos para a parte mais importante da equação: “É um dos poucos sistemas educacionais que funciona bem para quase todos os estudantes.” 

Apesar da tecnologia, o papel não vai deixar a sala de aula tão cedo

Com maior oferta de dispositivos digitais e uma geração nascida em meio à tecnologia, o papel e caneta não são mais as únicas opções para a sala de aula. Mas, apesar do aumento da presença de novas tecnologias, estudos mostram que livros impressos e anotações em papel ainda são preferidos pelos estudantes  e trazem mais benefícios para a aprendizagem. 
Pesquisa realizada pela organização Paper and Packaging Board, nos Estados Unidos, indica que as mídias impressas ainda são o meio preferido para a aprendizagem: de acordo com o estudo, 96% dos pais acreditam que o papel é essencial para as crianças alcançarem seus objetivos de aprendizagem. 


Essa percepção é compartilhada pelos estudantes: 70% dos alunos de ensino médio estudam para provas com anotações em papel, enquanto 81% dos estudantes universitários afirmaram usar anotações e livros físicos para se preparar para provas. 
A preferência dos universitários pelas mídias de papel é confirmada por uma pesquisa de Naomi Baron, professora de linguística da American University, em Washington DC, Estados Unidos. Segundo ela, 92% dos estudantes universitários preferem livros impressos para leituras sérias, que exigem maior concentração e retenção de conteúdo. 
No estudo publicado no livro “Words Onscreen: the Fate of Reading in a Digital World” (“Palavras na tela: o destino da leitura no mundo digital”, em tradução livre), Baron entrevistou 300 estudantes universitários de países como EUA, Japão, Alemanha e Eslováquia, e a maioria relatou dificuldades de concentração e cansaço físico ao ler livros digitais. 
“Há dois grandes problemas”, disse Baron, em entrevista à New Republic. “O primeiro é que eles dizem se distrair, se afastar para outras coisas. O segundo tem a ver com o cansaço nos olhos, dores de cabeça e desconforto físico.” 
Benefícios 
 
A preferência pelo papel traz benefícios para os estudantes, sobretudo quando precisam fazer anotações, além da leitura. 
Ao fazer anotações em papel, o estudante precisa processar as informações, selecionar os pontos mais relevantes e sintetizar de modo coerente para ele – esse processo impulsiona a aprendizagem e auxilia a retenção de informações, em comparação com estudantes que fazem anotações em computadores, segundo pesquisa desenvolvida pela Universidade da Califórnia em Los Angeles.  
As diferenças cognitivas entre os dois tipos de mídias são percebidas pelos estudantes. De acordo com o estudo da Paper and Packaging Board, 92% dos universitários preferem ler livros impressos – para eles, os livros de papel facilitam a concentração e facilitam o processo de se transportar para dentro da história. 
Já a dificuldade de concentração na leitura em mídias digitais é explicada pelas possibilidades de distrações dentro do próprio texto, como links e botões nas páginas web. 
“Mesmo se o leitor decidir conscientemente não clicar nos links, a distração de ver textos coloridos que podem ser clicados é suficiente para inibir a compreensão”, diz Julee Tanner, da Universidade Estadual de San Jose, nos Estados Unidos. “A distração cognitiva apresentada por textos clicáveis pode, sem dúvidas, ser confirmada por qualquer um que tenha passado tempo divagando em uma sequência de artigos da Wikipédia.” 
A preferência por livros físicos também é destacada na pesquisa de Tanner: os leitores escolhem livros digitais apenas quando a portabilidade e a conveniência são prioridades, mas preferem os livros de papel para melhor compreensão e empatia com o universo retratado no livro. 
Apesar de parecerem ligados mais diretamente ao entretenimento, esses aspectos da leitura em livro de papel devem ser levados em consideração na aprendizagem, de acordo com Baron. 
“É necessário se perguntar: o que queremos mensurar? A compreensão do texto? Esse é um modo muito simples e elementar de discutir o significado da leitura. Há certas conexões que fazemos que vão além da decodificação de palavras”, conclui Baron.  

Professores brasileiros têm salário adequado e benefícios acima da média, diz Banco Mundial

As queixas sobre a falta da qualidade da educação no Brasil costumam incluir uma premissa inquestionável: a de que os professores de escolas públicas são mal pagos e que essa é uma das principais razões para os maus resultados do ensino. 
Mas um novo estudo do Banco Mundial sustenta que essa premissa está errada. 
O relatório, divulgado nesta terça-feira, aponta outras causas para a péssima relação entre o gasto público e os resultados das escolas: o desperdício, a ineficiência e a falta de incentivos para os docentes. 
Eis o que diz o documento sobre os salários dos professores:
O piso salarial dos professores brasileiros está em linha com o que é pago em outros países com renda per capita similar. No entanto, os salários dos professores no Brasil aumentam rapidamente após o início da carreira. Devido às promoções automáticas baseadas nos anos de serviço e da participação em programas de formação, em 15 anos de carreira os salários se tornam duas a três vezes superiores ao salário inicial, em termos reais. Essa evolução supera significativamente a maioria dos países no mundo.
Um segundo aspecto destacado no relatório são as vantagems oferecidas aos professores dentro do sistema de previdência.
Além disso, vale destacar que os professores brasileiros têm direito a planos previdenciários relativamente generosos quando comparado a outros países da OCDE (ver o capítulo sobre a previdência). Essa generosidade dos benefícios previdenciários é muito superior aos padrões internacionais.
De acordo com o relatório, seria possível aumentar a qualidade do ensino fundamental em 40% e a do ensino médio em 18% sem aumentar as despesas com educação. Bastaria aumentar a eficiência na aplicação dos recursos e acabar com o desperdício.
Roberto Ellery, professor de Economia da Universidade de Brasília, concorda com as linhas gerais do estudo: “Existe um problema de gestão gigantesco. Não é pequeno, é gigantesco. Sem resolver isso, nem vale a pena botar mais recurso, porque existe a chance de ele ser mal aplicado”, avalia. 
Para o especialista, há ainda outros tabus que precisam ser enfrentados no universo educacional no Brasil, que passam pela questão pedagógica. Entre eles, o tamanho das salas de aula. “Na Ásia, você tem turmas grandes com resultados muito bons”, pondera. “Isso tudo são propostas. Se você leva isso para uma escola, te acusam de fascista”, diz. 
Já Gilmar Bornatto, professor da PUCPR questiona a metodologia usada pelo estudo do Banco Mundial e diz que a condição salarial no Brasil é, sim, um fato importante para a melhoria do magistério.“Os talentos acabam fugindo do magistério e a qualidade acaba caindo”, afirma.  
“Esse jovem que tem uma formação boa no ensino médio acaba procurando outra profissão. O que acaba vindo para o magistério vem de uma escola deficitária, da periferia, já trabalha, estuda à noite. E aí gera um professor que tem que correr atrás”, diz Bornatto. 
O documento do Banco Mundial também afirma que a profissão é desprestigiada, mas aponta outras explicações para o problema: a pouca seletividade na contratação desses profissionais e a falta de uma relação entre o salário e o nível de desempenho do professor.
O texto aponta alguns exemplos já aplicados e que mostram ser possíve, melhorar a educação com recursos limitados. 
O governo do Ceará, por exemplo, distribui os recursos do ICMS para os municípios de acordo com o índice de qualidade da educação de cada um.
No Amazonas, os professores passam por uma avaliação de desempenho no início da carreira e podem ser desligados se não cumprirem os requisitos. Os estados do Rio de Janeiro e de Pernambuco já adotam um bônus financeiro por desempenho para os professores.
“Todas essas experiências se mostraram custoefetivas, não somente melhorando o desempenho dos alunos, mas também aumentando a eficiência do gasto público em educação”, afirma o documento.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O que MASSACRES em escolas têm em comum?

O ataque que deixou dois alunos mortos em um colégio de Goiânia, aumentou a lista de ataques em massa em escolas brasileiras.

Movientação na frente de escola após crime
No Brasil, o último caso ocorrera há menos de um mês, em Janaúba (MG), quando um ex-funcionário invadiu uma sala de aula de educação infantil e ateou fogo, matando nove crianças e a professora. Nos Estados Unidos, situações como essas são recorrentes e apontam para uma epidemia de massacres cometidos dentro das dependências da escola. 
Um levantamento dos tiroteios em escolas e universidades americanas ocorridos entre 2012 e 2014, apontou que 70% dos atiradores eram menores de idade e em 36% dos casos pelo menos uma pessoa foi atingida. 
Em quase todos os casos, o perfil dos atiradores é de garotos adolescentes: desde 1974, em mais de 100 massacres ocorridos no mundo, apenas 4 foram feitos por mulheres.
Perfil
A ocorrência desse tipo de massacre pode estar ligada ao perfil dos jovens e à publicidade dos casos. “Pesquisas mostram que se tornar famoso é um dos objetivos mais importantes para essa geração”, diz Adam Lankford, professor de justiça criminal na Universidade do Alabama. “Não há dúvida de que existe uma associação entre a cobertura da mídia recebida por esses atiradores e a probabilidade de eles agirem”, diz ele.
De acordo com relato do delegado Luis Gonzaga Júnior, que investiga o caso, o tiroteio ocorrido em Goiânia foi inspirado pelo caso de Columbine e pelo Massacre do Realengo, em 2011. “Segundo informação do próprio adolescente, ele se inspirou em duas tragédias. E dessa inspiração fez nascer a ideia de matar alguém”, disse Gonzaga. 
O caso do Realengo foi o primeiro no Brasil com projeção mundial. Na ocasião, Wellington Menezes de Oliveira entrou na Escola Municipal Tasso da Silveira identificando-se como um palestrante e disparou mais de 100 tiros contra os alunos, matando doze pessoas. Dos doze mortos, dez eram do sexo feminino. 
Inspirações
O Massacre de Columbine, em 1999, causou um aumento em número e frequência de tiroteios em escolas -  cometido pelos adolescentes Eric Harris e Dylan Klebold deixou nove feridos e quinze mortos, incluindo os dois autores. 
Na ocasião, Harris e Klebold usaram espingardas para o tiroteio e planejaram uma ação terrorista com 99 explosivos escondidos na escola. A tragédia ganhou destaque mundial e inspirou atos similares em todo o mundo, em um fenômeno que especialistas chamam de Efeito Columbine: nos oito anos seguintes , 67% dos casos registrados nos EUA atribuíram inspiração no Massacre de Columbine.
Já o caso de Sandy Hook, ocorrido em 2012 também nos EUA, foi um dos maiores nos últimos anos: Adam Lanza, 20, matou a sua mãe, dirigiu até uma escola primária e atirou contra os presentes, assassinando 28 pessoas, incluindo 20 crianças. Nos três anos seguintes ao massacre, o número de tiroteios em massa aumentou no país – foram 944 tiroteios entre 2012 e 2015, sendo quase 300 no último ano do período. 

Levantamento realizado pelo FBI em 2013, contabilizando dados desde 2000, indicou um aumento no número de casos depois do Massacre de Columbine, com um crescimento ainda mais acentuado nos últimos anos. Segundo a pesquisa, o número de casos aumentou de 6,4 até 2006, para 16,4 entre 2007 e 2013. A maioria deles foram rápidos e mortais: 57% terminaram antes mesmo de a polícia chegar ao local e 40% deles tiveram pelo menos três mortes, sem contar o atirador – o total de mortos no período foi de 1.043 pessoas.
Massacres ocorridos em instituições de ensino, segundo dados do FBI, somaram 39 casos que resultaram em 117 mortos e 120 feridos. O maior deles aconteceu no Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia, em 2007 (32 mortos e 17 feridos), seguido do já citado massacre na escola primária de Sandy Hook, em 2012 (27 mortos e três feridos). Dos 14 tiroteios em escolas de ensino médio, 12 foram feitos por alunos da instituição.
Epidemia 
A motivação por meio de informações sobre outros massacres é parte do ciclo desses casos. De acordo com um estudo feito por pesquisadores da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, os massacres se espalham de modo “contagioso”, como uma epidemia.  
“E se um modo de explicar a epidemia de massacres em escolas é pensá-las como uma manifestação lenta e crescente, em que cada nova ação dos participantes faz sentido em reação e combinação com aquelas que vieram antes dela?”, teoriza Malcolm Gladwell, em análise publicada na revista The New Yorker. 
O ponto em comum para grande parte dos massacres em escolas ao redor do mundo  é o bullying; levantamento feito pelo psiquiatra Timothy Brewerton com dados dos 66 ataques em escolas que ocorreram entre 1966 a 2011 indica que 87% dos atiradores sofriam bullying e foram motivados por desejo de vingança. 
“Para quem trabalha em escola, é relativamente simples perceber quando existe um tipo de agressão que leva ao sofrimento; você percebe pela reação do estudante que é humilhado. Então é necessária uma ação mais direta”, diz Andrea Ramal, doutora em Educação pela PUC-Rio. 
Para ela é importante ressaltar que bullying não é uma causa isolada: “A pessoa não mata alguém por sofrer bullying; ele é um desencadeador; a partir dele, distúrbios podem ser acentuados, levando a essas reações.” 
Ambiente
Pesquisadores apontam que esses massacres adquirem ainda mais dimensão por violarem um ambiente-chave para a construção da cidadania “[A escola] deveria garantir a segurança de centenas de crianças e jovens que ficam sob sua tutela”, aponta a antropóloga Gilda de Castro Rodrigues, em artigo sobre a relação entre bullying e massacres em instituições de ensino. 
Segundo Gilda, a negligência da comunidade escolar ao lidar com bullying e a falta de difusão de informações sobre saúde mental podem ser culpados pelos casos que culminam em massacres. “Para que não haja outros massacres em escolas, é indispensável que os alunos sejam receptivos ao diferente e os professores atentos à intimidação de colegas”.