sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Estudo: 85% dos professores de História são de esquerda


O debate sobre a posição ideológica dos professores tem ganhado destaque no debate público nos últimos anos. Em Brasília, um grupo de parlamentares articula a aprovação de uma lei – a Escola Sem Partido – que proibiria o docente de defender uma posição política dentro da sala de aula.  O consenso entre os defensores do projeto é de que, especialmente na área de humanas, há uma doutrinação ideológica de esquerda por parte dos educadores. Mas, afinal, essa preferência política existe mesmo?
Há poucos estudos dedicados a mapear as preferências políticas dos professores. Um deles, entretanto, traz resultados significativos.
Uma dupla de pesquisadores realizou um levantamento com 288 professores de História de Brasil, Argentina Uruguai, Paraguai e Chile. O resultado: 84,5% dos professores brasileiros disseram preferir siglas de esquerda ou centro-esquerda.  O centro, a centro-direita e a direita, somados, corresponderam a 15,5% das respostas. 
Intitulada “Esquerda ou direita? Professores, opção política e didática da história”, a pesquisa tem como autores os educadores Caroline Pacievitch, professora de História da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Luis Fernando Cerri, professor de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
Em nenhum dos países participantes a maioria dos professores de História disse votar em algum partidos de direita. Na Argentina, 46,83% preferem a centro-esquerda ou a esquerda, um índice semelhante ao encontrado no Paraguai. O grupo de professores ouvidos que votam na esquerda e na centro-esquerda, no Uruguai, é 100%, no Chile, 93,33%, e, na Argentina, 69,62%. Os argentinos e paraguaios, de acordo com o estudo, são os que mais tendem a votar à direita do espectro político – 30,37% dos participantes da Argentina demonstraram esse comportamento.  
Embora o trabalho realizado pelos pesquisadores não tenha pretensões de “representatividade estatística”, os dados ajudam a identificar algumas tendências no ensino da disciplina de História. A preferência pela visão de esquerda da maior parte dos professores fica clara. 
Retrato de Che Guevara em muro de Havana: ícone da esquerda | Pixabay

Publicado por Educação - Gazeta do Povo em Segunda, 22 de janeiro de 2018
Outra ressalva do estudo é de que, no Brasil e na Argentina, a amostra é mais diversificada pelo fato de a formação universitária desses países estarem mais adiantadas. No caso do Paraguai, Uruguai e Chile, a amostra é mais restrita. 

Unesco

Um relatório mais antigo, elabora em 2004 pela Unesco, chegou a conclusões semelhantes.  Quando perguntados se concordam com a afirmação “A liberdade e a igualdade são importantes, mas se tivesse que escolher uma das duas, consideraria a igualdade como mais importante, isto é, que ninguém se veja desfavorecido”, 75,5% dos professores entrevistados responderam que “sim”. 
Embora o relatório da Unesco evite usar termos políticos, a frase em questão costuma ser usada para mapear pensamentos mais à esquerda. 

Impacto no aluno  

A partir de uma análise das respostas dos professores, os pesquisadores confirmam que a inclinação política do educador resulta em pequenas diferenças na aplicação didática dos conteúdos. Por esse motivo, os acadêmicos concluem que essas constatações “provocam reflexões sobre o papel dos formadores de professores de História”, o que reforça “a importância de conectar política e didática na constituição da responsabilidade docente”, afirma o artigo.  
Mesmo identificando a prevalência de visão esquerdista e com a constatação de diferenças didáticas dentro da sala de aula, o estudo afirma que não foi percebido o desejo consciente de doutrinação ideológica por parte dos professores, independentemente da crença política. 
Uma das autoras do artigo, a historiadora Caroline Pacievitch cita o exemplo das preferências de abordagem da ditadura militar brasileira entre os professores. Entre os educadores que participaram da pesquisa, ela afirma que nenhum deles abordou o tema fugindo daquilo que pode ser considerada uma explicação correta, do ponto de vista historiográfico. 
Neste caso, professores de esquerda costumam apresentar o período focando nas violações dos direitos humanos cometidos pelos militares. Já os educadores de direita preferem introduzir o assunto pela questão econômica, outro fato marcante da época. “Nenhum deles sai de uma interpretação correta do ponto de vista científico”, afirma Caroline. 
“Os alunos não chegam vazios à sala de aula. A gente não está conversando com quem não sabe nada de História. O conhecimento circula. Do ponto de vista científico, não acreditamos que o professor pode ser neutro. Ele tem que ser objetivo”, afirma a historiadora. 
Autor do estudo em parceria com Caroline, o professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UFPG), no Paraná, Luis Cerri afirma que o levantamento demonstra uma variação sutil na forma do professor lecionar, conforme a posição política. De acordo com Cerri, há pesquisas em andamento que tentam identificar a origem de certos pensamentos dos alunos. Um trabalho deste tipo, segundo o educador, apontaria para caminhos mais claros em relação à influência sofrida pelo estudante. Cerri, no entanto, acredita que o professor, atualmente, tenha um papel limitado na interferência do pensamento do aluno. 
“Trabalho com formação de professores, e a orientação que damos aos graduandos é que sempre se considera o ponto de vista de uma forma geral. Seria desonesto o professor dizer que não tem opinião, os alunos percebem que o professor tem. Um bom professor é aquele que, para além de sua posição, trabalha de forma completa os assuntos”, analisa. Cerri afirma que o professor de História tem um perfil mais voltado para um humanista do que para um esquerdista. 

Neutralidade: realidade ou utopia?  

A possibilidade de se atingir uma neutralidade dentro da sala de aula é um dos principais debates gerados após a proposição do Escola sem Partido. Amaury Cesar Moraes, professor de de Metodologia do Ensino de Ciências Sociais, na Universidade de São paulo (USP), defende a adoção de uma metodologia de aula baseada na alfabetização científica. 
Praticado há décadas na área das ciências naturais, o método preconiza que o professor deve respeitar o conhecimento científico no momento de ensinar. Isto é: o posicionamento não está proibido, mas o docente deve sempre estar baseado no que mostra a ciência. Assim, de acordo com Moraes, “o ensino de Sociologia cumpriria um importante e necessário papel na educação básica, fazendo diferença”, assinala. 
Moraes é autor do estudo “Ciência e Ideologia na Prática dos Professores de Sociologia no Ensino Médio: da neutralidade impossível ao engajamento indesejável, ou seria o inverso?”, em que analisa as escolhas feitas pelo professor dentro da sala de aula. No artigo, Moreas afirma que as aulas dos docentes não podem ser ditadas pelas suas próprias convicções ou crenças – sendo assim, o aluno teria preservada a construção de sua autonomia. 
“O professor deve ensinar uma visão variada, deve formar o aluno em vários vieses”, defende. O educador, porém, acredita que a influência da escola sobre o aluno, atualmente, esteja muito reduzida em relação há cerca de 30 anos. “A escola era mais estruturada, era um segundo espaço de forte influência das crianças. Hoje, não há mais uma influência tão decisiva. Ela concorre com outras fontes de informação”, compara. Conforme Moraes, as teorias do campo social não são só de esquerda. Da tríade de autores clássicos da sociologia – Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim –, os dois últimos têm visões mais de direita. 
Para o professor de sociologia João Valdir Alves Souza, vice-diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o docente assumir claramente uma ideologia não é um problema – fazer proselitismo e ativismo político dentro da sala de aula, porém, é algo comprometedor. “Eu posso deixar claro e devo deixar claro para os alunos o que penso. Mas não posso jamais impor isso a eles”, diz. 
A própria neutralidade, conforme Souza, já configura uma tomada de decisão – além de algo impossível de atingir. O educador acredita que o ponto central da discussão seja o esforço do professor em ensinar com base em argumentos científicos, e não levar para a sala de aula o seu próprio ponto de vista como verdadeiro. “Mesmo que o professor se diga neutro, o tempo todo ele será traído pelas posições que ele defende. Não existe essa neutralidade absoluta”. 
Souza afirma que os cursos de História tendem a recrutar pessoas que venham de um meio sociocultural mais alinhado aos pensamentos de esquerda. Apesar desse predomínio, o educador enxerga hoje uma reação a esse pensamento. “O mundo caminha para um retorno ao conservadorismo, o que favorece a emergência de nomes mais conservadores da historiografia dentro das universidades”, projeta Sousa.

Escolher uma escola deveria ser tão fácil quanto escolher um salão de beleza


Enquanto eu estava cortando o cabelo outro dia, comecei a conversar com a esteticista, que me contou sobre obter a certificação “Paul Mitchell Master Stylist”. Paul Mitchell é uma rede de cursos de estética e salões de beleza que treinam cabeleireiros. 
Quando se trata de educação, entretanto, poucos têm escolha. | Pixabay.
Para se tornar um “master stylist” (“cabeleireiro máster”, em tradução livre), um funcionário de salão de beleza deve oferecer uma certa quantidade de serviços em um mês, que comprova que ele ou ela atingiu um alto nível de competência e construiu uma clientela. 
A conversa me deixou pensando, como eu costumo fazer, sobre como muitas partes do setor privado estabelecem padrões de modo natural e eficaz – enquanto o governo, principalmente em se tratando de educação, é péssimo nisso. 
Pense sobre todas as coisas que você gasta dinheiro na sua vida. Por que você escolheria um produto ou serviço em vez de outro? É porque o governo falou que você deveria fazer essa escolha? A não ser que tenha um incentivo fiscal, provavelmente não. 
Mas no caso da educação, nós geralmente escutamos que uma escola é melhor do que a outra pelo governo, que estabelece os seus próprios padrões historicamente horríveis pelos quais ele julga as suas próprias escolas. Que sistema absurdamente falho! 
O mercado ajuda os consumidores a fazerem escolhas 
Eu não escolhi o salão que eu fui porque tem certificação Paul Mitchell (apesar de eu ter ouvido falar sobre a marca), mas eu ficaria inclinada, após ter uma experiência positiva lá, a escolher outro salão Paul Mitchell no futuro em vez de um salão não afiliado, se eu tivesse essa opção. É assim que o livre mercado funciona. 
Muitas pessoas indicam oficinas mecânicas aprovadas pela AAA (American Automobile Association) e apenas têm seus carros consertados em estabelecimentos que a AAA certifica como de “alta qualidade”. Similarmente, quando eu era criança, eu fiz muitas viagens de carro com a minha família. 
Nós ficamos em muitos acampamentos e aprendemos que quando víamos o selo de aprovação “Good Sam”,. Significava que o acampamento seria excelente. 
Pessoas que se tornam personal trainers têm muitas opções de tipos de certificação que elas podem conseguir, e algumas são reconhecidas como um padrão mais alto e de maior prestígio do que outras, o que significa que ela terá maiores chances de conseguir um trabalho com melhor remuneração. O mesmo ocorre com faculdades.
Todo mundo costumava saber que se você frequenta uma instituição de ensino da Ivy League (a reputação está ficando menos precisa com o tempo), você provavelmente é inteligente, tem boa educação e é capaz de conseguir uma carreira de alto nível. 
A Yelp!, a Angie’s List, estrelas Michelin e resenhas de produtos na Amazon fazem a mesma coisa. Eles nos informam quais produtos e serviços são os melhores. Eu poderia seguir listando centenas de exemplos de modos como as pessoas confiam no livre mercado para tomar decisões informadas sobre escolhas econômicas todos os dias. 
Quando se trata de educação, entretanto, poucos têm escolha, e as “escolhas” que o governo faz por nós são geralmente baseadas em, como eu apontei anteriormente, padrões baixos (isso é um eufemismo) que eles inventam. 

As escolas estão ensinando as crianças a odiar a leitura?


Em uma conversa recente, perguntei a um amigo como foi o último ano letivo para o seu filho. Ele respondeu que tinha sido relativamente bom, exceto por uma coisa. A escola, ele explicou, estava matando o interesse do seu filho pela leitura. 
Quando perguntei como isso estava acontecendo, ele disse que seu filho havia adotado a mentalidade de que a leitura era uma coisa a ser feita somente nos confins da sala de aula. Além disso, ele suspeitava que seu filho estava entediado com as atribuições de leitura, já que apenas alguns livros foram estudados durante o ano, e eles foram dissecados a tal ponto que o interesse no enredo diminuía consideravelmente até o final do livro. 
Ouvir esse relato faz com que as estatísticas ruins de leitura dos EUA fizessem mais sentido. De acordo com o Nation’s Report Card, apenas 34% dos alunos do oitavo ano são capazes de ler em um nível proficiente. Isso aumenta ligeiramente para 37% quando os alunos se formam no ensino médio. Ainda assim, tais números não são nada para se orgulhar, pois quase dois em cada três estudantes deixam o sistema escolar sem habilidades de alfabetização proficientes. 
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Publicado por Educação - Gazeta do Povo em Domingo, 21 de janeiro de 2018
A questão é: essas habilidades melhorariam se a orientação de leitura tivesse um caminho diferente? Se os alunos pudessem passar mais tempo lendo na escola por diversão, o interesse e a capacidade de leitura deles aumentariam? 
O autor professor de psicologia da Universidade da Virgínia, Daniel Willingham, acredita que isso poderia ser uma possibilidade. Com base em pesquisa, Willingham sugere que a criação de tempo para leitura por lazer nas escolas pode aumentar a compreensão e a capacidade de leitura, desde que os livros sejam “ricos em informações” e o professor seja experiente e rápido para reconhecer os interesses e necessidades dos alunos. 
No cenário atual, ler por lazer não é comum entre as crianças em idade escolar. No Reino Unido, apenas um quarto dos estudantes do ensino fundamental e 11% dos estudantes do ensino médio têm permissão para ler por prazer durante o dia letivo. 
As estatísticas para a leitura por lazer na escola parecem não existir nos EUA. No entanto, um estudo do Common Sense Media de 2014 sugere que quase metade dos formandos do ensino médio americano “leem por opção apenas uma ou duas vezes por ano”. 
John Adams disse uma vez que a tomada de decisão dos cidadãos americanos baseava-se nos conhecimentos adquiridos pelos livros. Ele opinou que, para que os americanos façam julgamentos bons, sábios e informados na escolha de líderes, eles devem primeiro deixar suas mentes serem “abertas e ampliadas pela leitura”. 
Com base nos índices de aprovação do presidente Trump e dos principais partidos políticos, os americanos não parecem tão felizes com suas escolhas de líderes políticos. É possível que parte desse descontentamento possa ser atribuído a um sistema educacional que parece matar, em vez de promover, um amor e interesse em leitura? 
Annie Holmquist é associada de pesquisa no Intellectual Takeout. Na sua posição, ela escreve para o blog, conduz uma variedade de pesquisas para o site e as mídias sociais da organização e auxilia no desenvolvimento de projetos. Gosta principalmente de dissecar os aspectos históricos da estrutura educacional dos Estados Unidos.
Tradução: Andressa Muniz

Como ler um livro (ou quase) em uma hora


Imersos em um número cada vez maior de atividades e ocupações, os estudantes parecem ter cada vez menos tempo para se dedicar à leitura de livros. Mas, mesmo quando o relógio não é um aliado, é possível obter informações relevantes de uma obra. 
O livro How to read a book (Como ler livros, na versão traduzida pela É Realizações) é um clássico que vendeu dezenas milhões de cópias nos Estados Unidos desde que foi publicado, em 1940, e tem sido usado em sala de aula desde então.  A tese central da obra de Mortimer Adler é a de que existem diferentes níveis de leitura, e que não necessariamente a sequência linear do início para o fim é a mais adequada em todas as circunstâncias. 
Nos casos em que o tempo é curto, por exemplo, usar o segundo nível (a pré-leitura) é mais inteligente do que começar o primeiro capítulo e seguir em sequência até que o tempo se esgote – sem que se chegue à parte mais importante. Folhear as páginas aleatoriamente tambem não é a melhor forma de usar o tempo.
Veja os seis passos que Adler propõe para obter o máximo de um livro em até uma hora.

1 – Leia o prefácio.

Uma rápida leitura deve ser suficiente para lhe dizer o tema central do livro e, com sorte, o argumento principal do autor. Identificar o tipo da obra e o objetivo do autor é essencial antes de seguir os próximos passos.

2 – Analise o índice. 

Pular o índice do livro é uma má ideia. Tão importante quanto olhar o mapa antes de uma viagem de carro é identificar o caminho percorrido pelo autor da obra, diz Adler.  O índice pode ter pistas valiosas sobre a estrutura da obra.

3 – Veja o índice remissivo – caso haja um. 

O índice remissivo é a sessão, no fim do livro, que lista palavras-chave e indica onde elas são citadas ao longo da obra. Aqui é possível ter uma boa ideia dos assuntos que ocupam mais espaço no livro. Identifique os temas cruciais e confira algumas passagens do livro sobre eles.  Assim, será possível compreender ao menos parcialmente a perspectiva do autor.

4 – Leia a contracapa. 

Sim, ela pode trazer uma versão super-resumida da obra e sintetizar os argumentos principais do autor. 

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5 – Identifique os capítulos mais importantes. 

Com base nas informações que você já recolheu, isso não deve ser um problema. Dê uma olhada geral nesses capítulos – se houver houver um sumário no início de cada um, leia com atenção. 

6 – Folheie a obra livremente. 

Depois de ter percorrido as cinco etapas anteriores, o leitor já deve ter uma noção clara do tema central do livro, da forma de organização da obra e da perspectiva do autor. Agora, é possível folheá-lo de forma superficial, parando ocasionalmente para ler um ou alguns parágrafos que pareçam importantes. E, por fim, não deixe de ler as últimas duas ou três páginas. Em muitos casos, elas trazem um resumo do que foi dito no livro.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Escola norte-americana reduz suspensões e problemas disciplinares com meditação

Ao contrário das punições tradicionais para problemas de disciplina, meditação e aromaterapia: uma escola norte-americana trocou a detenção e as suspensões por técnicas de relaxamento para mudar o comportamento dos alunos. Os resultados são menor ocorrência de brigas e, claro, mais disciplina. 
Em Baltimore, a escola de ensino fundamental Robert W. Coleman adotou a meditação como resposta aos problemas disciplinares dos estudantes. As sessões são realizadas em uma sala específica, chamada “Mindful Moment Room” (“Sala de Momento Consciente”, em tradução livre). No espaço, estudantes se acomodam em meio a almofadas e tapetes de yoga e fazem exercícios de respiração. 
Objetivo da iniciativa é oferecer um espaço calmo na vida turbulenta dos estudantes. | Holistic Life Foundation.
Parceria 
O projeto é resultado de uma parceria com a ONG Holistic Life Foundation, que aloca funcionários na escola para trabalharem diretamente com alunos que apresentam problemas de disciplina. 
Em cada situação de comportamento inapropriado, um funcionário conversa com o estudante, o incentiva a falar sobre o problema e então realiza exercícios de respiração e meditação até que se acalmem. Além disso, todos começam e terminam o dia letivo com quinze minutos de meditação, e têm acesso a aulas de yoga durante todo o dia. 
O objetivo da iniciativa é oferecer um espaço calmo na vida turbulenta dos estudantes: 80% dos alunos da escola são de baixa renda, e cerca de 25% vivem abaixo da linha de pobreza. 
“Algumas das nossas crianças são moradoras de rua. Alguns vêm para a escola em situações em que não têm luz ou comida em casa. Eles veem crimes acontecerem nos seus bairros”, disse o diretor da escola, Carlillian Thompson, em entrevista à CNN. “Então estamos nos esforçando muito para que esse seja um lugar em que as crianças se sentem seguras e onde suas necessidades são atendidas.”  
A mudança teve resultados desde a implementação: Thompson afirma que se tornou raro receber alunos na diretoria para tratar problemas de disciplina. 
Preocupação 
No Reino Unido, a preocupação com a consciência é incentivada pelo Ministério da Educação como uma prática a ser adotada no cotidiano escolar. De acordo com o ministro Edward Timpson, a abordagem é uma ferramenta necessária para que as crianças e adolescentes se conectem consigo mesmas. 
“As crianças não conseguem se desconectar do mundo online, e isso está mudando a forma de muitos dos seus relacionamentos e as pressões que eles sofrem em uma idade muito mais tenra”, disse durante um debate no Parlamento. 
“Queremos que as escolas tenham uma abordagem holística que faça falar de sentimentos, emoções e bem-estar como algo normal para os alunos”, completou o ministro. 
Benefícios 
Os benefícios da meditação foram analisados em um estudo realizado com quase 1800 estudantes de seis países sobre o impacto da prática no desempenho e bem estar dos alunos. A pesquisa aponta que o ensino de meditação nas escolas leva a emoções mais positivas, maior otimismo, melhor autoestima e autoaceitação e menos níveis de ansiedade e depressão. 
Essas mudanças emocionais, de acordo com o estudo, geram também melhorias na aprendizagem, com melhor desempenho acadêmico entre os alunos que praticam meditação regularmente. Entre os ganhos para a aprendizagem, foram observados maior criatividade, foco e flexibilidade cognitiva, além de maior agilidade no processamento de informações e melhoria na memória. 
De modo similar, estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) aponta que a meditação reduz problemas de comportamento e agressividade entre crianças e adolescentes. Com base em uma análise de pesquisas feitas com crianças e adolescentes de 6 a 18 anos, em um período de 26 anos, acerca dos efeitos de práticas de meditação em ambientes como escolas, clínicas e centros comunitários. 
Os benefícios da meditação são ainda mais comprovados em adultos: estudos realizados ao longo de três décadas mostram ganhos em longo prazo na redução de estresse psicológico e outros problemas de saúde relacionados, como ansiedade, depressão, distúrbios do sono e abuso de flutuações de peso. 
Medida complementar 
A meditação auxilia no equilíbrio emocional, mas a técnica não substitui terapia ou outras formas de assistência especializada. Para o professor Argos Gonzalez, criador do projeto Mindful Schools, que leva técnicas de meditação para escolas, a atividade não substitui terapia, mas alivia o estresse no momento de crise, “por tempo suficiente para alguém intervir”.
“Às vezes os papeis se confundem – professores, terapeutas, assistentes sociais”, explica Gonzalez. “Se não tratarmos o barulho na cabeça da criança quando ela o traz de fora da escola, não importa quão bom o professor seja, ele não terá muito sucesso.”

Prêmio dá R$ 200 mil a escolas por projetos de educação integral

A Escola Municipal Piratini, na região de Pinheirinho, em Curitiba, tem cerca de 400 alunos. A maioria mora no entorno, em casas com poucos cômodos e muita gente. A principal opção de lazer para as crianças é a própria rua, que não oferece segurança. É nesse contexto social que atua o projeto Protagonistas em Ação, desenvolvido há cinco anos por meio de uma parceria entre a escola municipal e o Centro de Transformação Social Vida Nova, uma organização da sociedade civil (OSC) local. 
Escola Municipal Piratini, em Curitiba, oferece atividades esportivas e culturais  | Centro de Transformação Social Vida Nova
A iniciativa foi uma das 32 finalistas da 12º edição do Prêmio Itaú-Unicef, que busca estimular ações de educação integral em todo o Brasil. Na cerimônia de premiação, realizada na última segunda-feira, dia 11, em São Paulo, foram anunciados os quatro vencedores. O projeto Protagonistas em Ação não levou a recompensa de R$ 200 mil, mas Doris Faria, assistente social e fundadora da OSC de Pinheirinho, diz que ter chegado à última etapa do prêmio entre 1.651 concorrentes já valeu como um importante reconhecimento do trabalho. A premiação em dinheiro também ajuda: a escola ganhou R$ 60 mil reais por ter chegado à final.
De acordo com Doris, o principal objetivo do Protagonistas em Ação é unir instituição de ensino, OSC e famílias, a fim de proporcionar melhores condições de desenvolvimento para as crianças. Matheus Henrique da Silva Campolim, 9, está no terceiro ano e é um dos 30 estudantes que fazem parte do projeto. Entre as atividades de informática, reforço de matemática e de português, rodas de leitura, olimpíadas de conhecimento e capoeira, a que ele mais gosta é essa última. Mas ele também gosta de ler, e mostra que sabe contar suas histórias preferidas de cor. 
Há três anos como um “protagonista em ação”, Matheus incrementou o projeto com uma atividade. “Eu inventei o piquenique”, conta ele. “A gente coloca uma toalha bem bonita no chão, cada um traz uma coisa para comer, e a gente divide tudo”, explica o menino. A ideia virou rotina e o piquenique passou a acontecer toda quinta-feira, no espaço da escola ou do centro. 
Pará 
Do outro lado do país, na cidade de Bragança, no Pará, outros estudantes também estão tendo a oportunidade de criar novos hábitos na escola e na comunidade onde vivem. No projeto Aluno Repórter – a Imprensa na Escola, os estudantes aprendem a elaborar pautas, buscar informações dentro e fora da escola e transformar a apuração em reportagens. O material é veiculado de segunda a sexta, das 8h às 9h, pela rádio Educadora AM, que tem alcance em Bragança e municípios vizinhos, e ainda pela TV Educadora. 
Esse trabalho conjunto da Fundação Nossa Senhora do Rosário com a Escola Estadual de Ensino Fundamental do Rocha foi um dos vencedores da 12ª edição do Prêmio Itaú-Unicef. Também foram premiados os projetos Cultura, Esporte e Cidadania, de Criciúma, em Santa Catarina; Olho Vivo, de Niterói, no Rio de Janeiro; e Circulando Cultura na Escola, de Major Sales, no Rio Grande do Norte. 
Aprendizado extracurricular 
Com uma proposta de oficinas esportivas e culturais e promoção de cursos profissionalizantes em parceria com o Senai, o projeto Cultura, Esporte e Cidadania envolve 565 crianças e adolescentes e é encabeçado pela Escola Municipal de Educação Básica e Ensino Fundamental Padre Paulo Petruzzellis e pela organização Bairro da juventude. 
Já o projeto Olho Vivo é de responsabilidade da Escola Estadual Guilherme Briggs junto com a Associação Experimental de Mídia Comunitária (Bem TV). Nele, 54 adolescentes entre 13 e 18 anos aprendem a fotografar, filmar e desenvolver aplicativos com objetivo não só na inserção profissional, mas também no desenvolvimento da criticidade. 
Na ação da escola Municipal Antonio José da Rocha com a Associação Comunitária Sociocultural de major Sales, as atenções estão voltadas para as tradições populares. Através do Circulando Cultura na Escola, os alunos são incentivados a conhecer a cultura local por meio da troca com mestres e mestras da região e de um mapeamento sobre as histórias, lendas, artesanatos, ofícios e manifestações presentes no entorno onde vivem e estudam. O aprendizado é exibido em apresentações de música, dança, teatro e contação de história para a comunidade. 
Premiação
Todos os projetos concorrentes ao Prêmio Itaú-Unicef são frutos de parcerias entre escolas públicas e organizações da sociedade civil, criadas com foco na promoção de atividades que proporcionem o aprendizado extracurricular. “A proposta de educação integral permite levar em conta todos os componentes do desenvolvimento de um jovem, tanto cognitivo como social, afetivo, físico e emocional. Por isso a educação integral favorece o desenvolvimento e contribui, ao final, para reduzir as desigualdades sociais, que é o nosso maior desafio no Brasil”, afirmou a representante do Unicef no Brasil, Florence Bauer. 
De acordo com Bauer, o país tem hoje cerca de 2,8 milhões de crianças e adolescentes fora da escola. Atrair esses jovens para as salas de aula e, ao mesmo tempo, evitar a evasão daqueles que já estão matriculados estão entre as principais colaborações que se acredita que a educação integral pode ter. 
Para fomentar essa proposta, o Itaú Social e o Unicef propõem a formação de educadores ao longo de todo o ano, além de oferecer o estímulo financeiro. As premiações em dinheiro são distribuídas em três etapas. Neste ano, do total de inscritos, foram pré-selecionados 96 iniciativas, que receberam R$ 20 mil. Destes, chegou-se à escolha das 32 finalistas, dotadas com mais R$ 40 mil. Os últimos quatro ganhadores levaram R$ 200 mil. De acordo com o regulamento do prêmio, esses recursos devem ser destinados à manutenção e ampliação dos projetos, por parte das OSCs, e ao fortalecimento de ações de educação integral, no que cabe às escolas. 
A partir de 2018, as edições do prêmio passarão a ser anuais, em vez de bienais, como vinha sendo desde que o prêmio foi criado, há 22 anos.

Professora acusa alunos de tentar envenená-la

A professora Célia de Oliveira Schonherr, de 46 anos, acusa alunos do Ensino Médio de tentar matá-la por envenenamento. O caso aconteceu na sexta-feira, 8, na Escola Estadual Santa Elvira, em Juscimeira, interior de Mato Grosso. Na delegacia, Célia registrou boletim de ocorrência por tentativa de homicídio. 
Vista aérea de Juscimeira (MT), onde o caso aconteceu | Prefeitura de Juscimeira
Segundo a coordenação pedagógica da escola, a professora ministrava aula no 1º ano do Ensino Médio quando alguns alunos começaram a borrifar um desodorante em spray nos fundos da sala de aula. Célia pediu para que os adolescentes parassem mas, como não foi atendida, decidiu tirar todos da sala devido ao cheiro forte e terminou a aula no corredor.
Antes de se dirigir à turma do 6º ano para dar a próxima aula, a professora bebeu água e, imediatamente, sentiu a garganta arder. Também relatou um forte cheiro de álcool na garrafa, de acordo com a escola. No dia seguinte, Célia afirmou à direção que suspeitava que algum aluno do Ensino Médio tivesse colocado perfume em sua garrafa d'água. 
O marido da professora, Adriano Schoenherr, disse que Célia está internada em Juscimeira para exames e que vomita qualquer alimento que ingere. "São crianças que conhecem a minha esposa desde bebês. A gente fica com o coração apertado, pois são crianças", disse. 
Em nota, a Secretaria de Estado de Educação afirmou que "acompanha com atenção" o estado de saúde da professora e que ela "está sob cuidados médicos, desde a semana passada, após uma crise alérgica". A escola realizou reunião com pais e alunos.
O caso foi encaminhado ao Conselho Tutelar da cidade. O depoimento da professora está em mãos do delegado de Juscimeira, Bruno Sérgio Magalhães, para despacho. A coordenação pedagógica da escola afirma que a garrafa d'água teria sido recolhida pela diretora, mas não soube informar se o líquido passará por perícia. 
Célia dá aulas de Português no ensino médio e fundamental há 16 anos. Por telefone, a coordenação pedagógica disse lamentar que o caso tenha acontecido numa cidade tão pequena onde todos se conhecem. A professora disse que, mesmo ciente das dificuldades na área de educação, nunca imaginou que seria um dia vítima da suposta tentativa de homicídio.