segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O papel do coordenador pedagógico


Função é estratégica para mediação entre as diversas instâncias educacionais


Laurinda Ramalho de Almeida e Vera Maria Nigro de Souza Placco

Crianças em roda de leitura em escola de Belém, no PA: coordenador pedagógico deve oferecer condições ao professor para que se aprofunde em sua área
Cada escola tem características pedagógico-sociais irredutíveis quando se trata de buscar soluções para os problemas que vive. A realidade de cada escola - não buscada por meio de inúteis e pretensiosas tentativas de "diagnóstico" - mas como é sentida e vivenciada por alunos, pais e professores, é o único ponto de partida para um real e adequado esforço de melhoria.

José Mário Pires Azanha. Documento preliminar para reorientação das atividades da Secretaria. Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, 1983.

Retomamos esta afirmação de Azanha, que foi exaustivamente discutida pelos educadores da rede estadual paulista, na década de 80, porque ela nos lembra que não se pode falar da escola, mas sim de cada escola em particular.
Como pensar em tempos-espaços iguais para o desenvolvimento de propostas curriculares, se as escolas não são iguais? Como fazê-lo, se não dá mais para pensar em escolas urbanas e rurais, pois já temos urbanas centrais e de periferia, rurais de campo e ribeirinhas, bem como variadas combinações de cada um desses tipos?
Se o instituído pelo currículo tem uma base legal - e precisa tê-la, para garantir a Educação Básica para todos, num Estado que se quer democrático, como atentar para essas tantas diferenças não só regionais, mas dentro de cada região?
Parece-nos, então, mais apropriado pensar os atores da escola singular - gestores, professores, auxiliares de apoio e alunos -, em suas relações com as questões curriculares, sem perder de vista que estas são relações de indivíduos portadores de subjetividades com um instituído que lhes é apresentado, via de regra, como objeto a ser manipulado, que a alguns agrada, a outros desagrada. Nessas relações pedagógicas intersubjetivas direção-professor, professor-professor, professor-aluno, aluno-aluno, e destes com o saber instituído pelos currículos que lhes são apresentados, aparecem os conflitos, as contradições, as perdas de referência dos elementos estruturantes de seu modus vivendi. É certo que aparecem também as aderências ao proposto e as tentativas de fazê-lo o melhor possível.
Para melhor entender essas relações, escolhemos, neste texto, o coordenador pedagógico (ou professor-coordenador ou coordenador pedagógico-educacional ou outro termo que designe esse profissional) como ator privilegiado para nossa discussão.

A escolha se deve ao fato de entendermos que ele tem, na escola, uma função articuladora, formadora e transformadora.
Portanto, é o elemento mediador entre currículo e professores. Assim, esse profissional será, em nosso modo de ver, aquele que poderá auxiliar o professor a fazer as devidas articulações curriculares, considerando suas áreas específicas de conhecimento, os alunos com quem trabalha, a realidade sociocultural em que a escola se situa e os demais aspectos das relações pedagógicas e interpessoais que se desenvolvem na sala de aula e na escola.
Esclarecemos, inicialmente, que não aceitamos o coordenador pedagógico como "tomador de conta dos professores", nem como "testa-de- ferro" das autoridades de diferentes órgãos do sistema.
Ele tem uma função mediadora, no sentido de revelar/desvelar os significados das propostas curriculares, para que os professores elaborem seus próprios sentidos, deixando de conjugar o verbo cumprir obrigações curriculares e passando a conjugar os verbos aceitar, trabalhar, operacionalizar determinadas propostas, porque estas estão de acordo com suas crenças e compromissos sobre a escola e o aluno - e rejeitar as que lhes parecem inadequadas como proposta de trabalho para aqueles alunos, aquela escola, aquele momento histórico.

O que competiria, então, ao coordenador pedagógico?
- Como articulador, seu papel principal é oferecer condições para que os professores trabalhem coletivamente as propostas curriculares, em função de sua realidade, o que não é fácil, mas possível;
- Como formador, compete-lhe oferecer condições ao professor para que se aprofunde em sua área específica e trabalhe bem com ela;
- Como transformador, cabe-lhe o compromisso com o questionamento, ou seja, ajudar o professor a ser reflexivo e crítico em sua prática.
Como articulador, para instaurar na escola o significado do trabalho coletivo, é fundamental que o coordenador pedagógico possibilite ações de parceria, de modo que, "movidas por necessidades semelhantes, (as pessoas) se implicam no desenvolvimento de ações para atingir objetivos e metas comuns", de modo a pôr em movimento as metas curriculares propostas, conforme descrito em nosso livro Aprendizagem do adulto professor (Edições Loyola, 2006).
O coordenador pedagógico será, então, aquele que, conhecendo essas propostas, tendo participado de sua elaboração/adaptação às necessidades e objetivos daquela escola, possibilita que "novos significados sejam atribuídos à prática educativa da escola e à prática pedagógica dos professores", ( O coordenador pedagógico e os desafios da educação , Edições Loyola, 2008).

Outro aspecto importante dessa articulação é a possibilidade de interdisciplinaridade, a fim de que o compromisso com a formação do aluno se traduza na não-fragmentação, na conciliação e confrontação de propostas e ações curriculares.

Visto como formador, dois aspectos devem ser destacados na função do coordenador pedagógico:
a) seu compromisso com a formação tem de representar o projeto escolar-institucional e tem de atender aos objetivos curriculares da escola;

b) o compromisso com o desenvolvimento dos professores tem de levar em conta suas relações interpessoais com os demais atores da escola, alunos, pais, comunidade, sendo estas relações entendidas em sua diversidade e multiplicidade, aceitas como se apresentam, aproveitadas como recurso para o processo formativo, como explicado em O coordenador pedagógico e questões da contemporaneidade.
Finalmente, como transformador, espera-se sua participação no coletivo da escola como aquele que permite e estimula a pergunta, a dúvida, a criatividade, a inovação. Só assim a escola se instituirá não apenas como espaço de concretização do currículo, mas também como espaço de mudanças curriculares necessárias e desejadas pelos professores, para cumprir seus objetivos educacionais.

Laurinda Ramalho de Almeida e Vera Maria Nigro de Souza Placco são professoras do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: Psicologia da Educação, da Faculdade de Educação da PUC-SP

Foco nos diretores


MEC anunciou a criação de um polêmico programa de valorização dos diretores de escolas de Educação Básica.


Em seu curto mandato, o então ministro da Educação Cid Gomes anunciou a criação de um polêmico programa de valorização dos diretores de escolas de Educação Básica. A polêmica residia na concessão de uma bonificação mensal àqueles que fizessem um curso de qualificação e melhorassem a gestão da escola em termos financeiros, administrativos e pedagógicos. A política ignorava os demais aspectos que interferem no aprendizado escolar. Dez meses depois, o MEC voltou ao tema, mas, dessa vez, sem falar em bônus atrelados a resultados. De acordo com portaria publicada no início de dezembro, o Programa Nacional de Formação e Certificação de Diretores Escolares irá capacitar e certificar diretores em exercício, além de candidatos ao cargo por meio de processos de formação continuada (um curso de aperfeiçoamento com duração aproximada de seis meses e um de extensão, de quatro meses) com base em padrões nacionais, que ainda serão estabelecidos e divulgados. A adesão ao programa será voluntária, portanto, a certificação será obrigatória apenas para entes federados que fizerem essa opção. As metas do programa serão estabelecidas com o apoio de instituições públicas de ensino superior. A portaria também instituiu a criação de um comitê gestor formado por membros do MEC, do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). Esse comitê aprovará os padrões nacionais para diretores e fiscalizará o trabalho feito pelas instituições credenciadas para a certificação. O prazo de criação dos referidos padrões e, consequentemente, do início das demais ações previstas ainda não foi definido. Sobre a intenção de capacitar e certificar os candidatos ao cargo de diretor escolar, vale ressaltar que, na rede municipal, 75% desses gestores chegam ao posto por indicação política. Na rede estadual, esse indicador é de 40% conforme a Pesquisa de Informações Básicas Estaduais (Estadic) e Municipais (Munic), publicada recentemente pelo IBGE.

Marina Kuzuyabu e Mariana Ezenwabasili

FONTE:http://revistaeducacao.uol.com.br/textos/noticias/foco-nos-diretores-367388-1.asp

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Como homenagem aos educadores, movimento cria a hashtag #obrigadoprofessor

A ideia é estimular que todos aproveitem a data para reconhecer e valorizar o trabalho desses profissionais no dia a dia


Para homenagear os professores nesta quinta-feira (15), quando é comemorado o seu dia, o movimento Todos pela Educação convida os internautas a agradecer aos profissionais nas redes sociais, com a hashtag #obrigadoprofessor.
O slogan da campanha é “Se tem uma lição de casa que o Brasil precisa fazer, é valorizar o bom professor”. Segundo o movimento, a ideia é estimular que todos reconheçam e valorizem o trabalho desses profissionais no dia a dia e que aproveitem a data para homenagear um ou mais professores que tenham marcado a trajetória pessoal
Para que o país ofereça uma educação de qualidade a todas as crianças e jovens, o Todos Pela Educação definiu cinco atitudes que podem ser tomadas por toda a população para acompanhar de perto a educação e ajudar no aprendizado.
Valorizar o professor, profissional central no processo de ensino, o aprendizado e o conhecimento é a atitude 1 do movimento.



A MELHOR SALA DE AULA


O mundo aí fora é, de fato, a melhor sala de aula que existe. Ele contém todos os elementos que o processo ensino-aprendizagem precisa para explorar e explicar todas as áreas do conhecimento. Afinal, não há melhor laboratório para ciências naturais do que o ambiente aberto. Podemos sim aprender ótica vendo um arco-íris, estudar reações químicas na atmosfera ou estudar biologia observando os animais e as plantas como eles efetivamente são.
Claro que há e sempre haverá espaço para as salas de aulas, sejam elas presenciais ou a distância, enquanto locais para sistematização, exploração de modelagens e cristalização dos conhecimentos adquiridos. Porém, se educação puder ser conjugada com atividades no mundo exterior, certamente, ela será mais enriquecedora e estimulante aos olhos dos educandos.
No ensino superior, uma experiência recente levou a abordagem acima às últimas consequências e tem sido acompanhada como um caso de extremo sucesso. Trata-se da Universidade Minerva, em São Francisco-USA, no Vale do Silício. Criada em 2012, ela não tem um campus tradicional, não dispondo de salas de aula, bibliotecas ou laboratórios. Ela adotou as ruas como seus campi e o fez, até aqui, com muita pertinência. Os estudantes compartilham dormitórios da instituição e as aulas, especialmente ao longo do primeiro ano comum, são videoconferências desenhadas pelos melhores tutores disponíveis na atualidade. Refiro-me a nomes como Larry Summers, ex-reitor da Universidade Harvard e ex-secretário do Tesouro americano, Bem Nelson, grande executivo com passagens pela HP, Snapfish e Disney, o conhecido neurocientista Stephen Kosslyn, uma das maiores autoridades do mundo em psicologia cognitiva, entre outros. Em suma, o desenho da trajetória desses alunos ao longo de quatro anos de graduação é fruto da contribuição de pessoas altamente capazes de interpretar o mundo contemporâneo.
Nos três anos seguintes ao primeiro ano em São Francisco, todos os alunos devem passar seis meses em seis cidades diferentes do mundo (Berlim, Buenos Aires, Seoul, Bangalore, Londres e Istambul) cumprindo o desenho previsto nos respectivos percursos, os quais foram desenhados, bem como serão acompanhados, por seus mestres. Os custos para os alunos são muito acessíveis, comparados com instituições similares, e incluem todas as despesas com acomodações e alimentação. Difícil para o aluno é ser selecionado, dado que a concorrência é altíssima, bem maior do que Harvard, Yale, MIT, Stanford etc. Obviamente que os primeiros formandos da Minerva serão disputados pelo mercado por seus diferenciais impressionantes, a começar pela experiência internacional sem precedentes no ensino superior clássico. Vale a pena acompanhar, de olhos bem abertos, esta experiência (https://www.minerva.kgi.edu/).
No Brasil, temos experiências igualmente interessantes na educação não formal. Por exemplo, o “Rolé Carioca”, iniciado por professores de história da Universidade Estácio de Sá, desenvolve passeios históricos ao ar livre por bairros do Rio, contribuindo com que os participantes se situem histórica e geograficamente de forma muito enriquecedora. Eu mesmo, novato no Rio, tenho sido aplicado aluno destas atividades que reúnem dezenas, centenas, às vezes até milhares, de animados participantes.  Há uma ênfase na descrição comentada dos conjuntos arquitetônicos, associados de forma muito criativa aos bens imateriais do ambiente, tais como personagens, acontecimento, cheiros e sabores. Para quem quiser saber mais, acessar https://www.facebook.com/RoleCarioca.  Soube que vem aí algo do tipo “Rolé Brasilis” ou mesmo “Rolé Mundo”. A conferir.
Em suma, aprender é sempre bom. Se puder ser em contato com o mundo externo fica muito mais prazeroso e eficiente.

O PAÍS DO FUTURO ESTÁ APAIXONADO PELO SEU PASSADO


Se há uma sensação coletiva que se possa chamar de generalizada neste momento no Brasil é a de que, mais uma vez, o almejado futuro não se materializou. Ou seja, o sonhado desenvolvimento econômico, social, ambiental e cultural sustentável dá espaço ao sabor de frustração e ficamos, os mais otimistas, no aguardo de um novo ciclo, cuja data de inauguração não foi sequer anunciada.
Sabemos crescer, mas não sabemos fazê-lo de forma sustentável. Temos uma riqueza natural e humana reconhecida mundialmente, mas ela parece periodicamente perder para nossas fragilidades. Identificar as complexas causas das recorrentes derrotas é tarefa hercúlea e fruto de muita controvérsia. Tal cenário, onde a esperança parece adormecida, é acompanhado de modesta inspiração para produção cultural.
Um destacável reflexo de nossa pobreza cultural contemporânea são nossos olhos voltados ao passado como nunca. A ausência de aderência ao presente e a falta de perspectiva de futuro próximo nos faz estimular no mundo da cultura um evidente apego sem precedentes pelo passado.
No campo da música, jamais se ouviu com tanto vigor os artistas das décadas de 60 e 70. Mesmo entre os mais jovens, muitos findam por estabelecer entre seus ídolos aqueles mesmos que foram de seus pais, refletindo possivelmente que temos uma geração tímida de novos artistas.
No teatro, particularmente os musicais, exatamente onde o Brasil mais avançou, é sintomático que quase todos os grandes sucessos dos últimos anos estejam dedicados a recuperar a vida de artistas antigos, a exemplo de Tim Maia, Elis Regina, Cazuza, Chacrinha, Simonal, Raul Seixas, Cássia Eller, Imperial e tantos outros. Isso tudo talvez reflita um país desgostoso com seu presente, sem claras perspectivas para seu futuro e buscando no seu passado recente motivos para continuar a crer na sua história.
No cinema mesmo com novidades pontuais de valor na praça, a revalorização recente de personagens antigos como José Mojica Marins, o famoso Zé do Caixão, é sintoma claro da possível ausência de produção atual mais significativa, em profundo contraste com a pujança da vizinha Argentina nesta área. Neste caso específico, evidenciando que nem sempre as crises econômicas estejam irremediavelmente associadas à pobreza de produção cultural, mas no Brasil, infelizmente, amargamos a possibilidade de estarmos vivendo todas elas simultaneamente.
Ainda que não seja o objetivo deste breve texto apontar possíveis causas, dado que por serem múltiplas e complexas qualquer simplificação estaria errada ou insuficiente, não há como não perceber que falhamos, ao menos parcialmente, na educação. Nesta área tivemos sim sucessos, inegáveis por sinal, como universalizar a educação fundamental, ampliar de forma significativa o acesso ao ensino superior ou a construção eficiente de um respeitável sistema nacional de pós-graduação.
Por outro lado, claramente falhamos em conjugar qualidade e quantidade. Quando universalizamos ou ampliamos de forma significativa, o fizemos com rebaixamento de qualidade. Quando ofertamos qualidade, o fizemos para poucos, muito poucos. A inovação que deixamos de criar foi ofertar qualidade para muitos. Esta sim, a meu ver, se não é a única, é a principal razão da sensação de fracasso que nos move a olhar para trás e de forma saudosista pedir mais uma chance de sermos, mais uma vez, o país do futuro.
Eppur si muove e voltaremos ao tema com mais detalhes posteriormente.

POR QUE NÓS PROFESSORES AVALIAMOS OS ALUNOS ?


Avaliar certamente tem a ver com aprovar ou não os educandos, mas esse não deve ser o único motivo, talvez nem o principal. Tão ou mais importante que medir o quanto sabem nossos alunos é tentar obter dados que permitam conferir e repensar permanentemente as abordagens educacionais adotadas. Se possível, ao avaliarmos, conhecê-los melhor e porque os conhecemos e os reconhecemos individualmente sermos capazes de traçar percursos de aprendizagem adequados.
Nas abordagens mais comuns boa parte das avaliações se dá via questões ou tarefas que pretendem responder se o aluno sabe ou não sabe. Sendo assim, em geral, importa quase exclusivamente se as repostas às questões estão certas ou erradas. Normalmente, as respostas erradas, além de indesejáveis, são, em geral, inúteis do ponto de vista consequências futuras no próprio processo em curso. O fruto da avaliação, nesta perspectiva mais simplista, não vai além de um atestado que pretende informar se o estudante domina ou não aquele conteúdo específico.
Para os professores mais comprometidos as respostas erradas têm a mesma relevância que as certas. Se as respostas certas atestam algum domínio do conteúdo, as erradas permitem identificar eventuais lacunas, possíveis conceitos equivocados, ritmos adequados de aprendizagem, dificuldades em interpretar texto, falta de foco e concentração, ausência de atitudes e iniciativas etc.
Na verdade, não somente respostas às questões importam, elas se somam a um conjunto enorme de atos, comportamentos, velocidades, reações e capacidades de enfrentar desafios, de forma isolada ou em equipe, que no global evidenciam habilidades e competências muitas vezes difíceis, ou mesmo impossíveis, de serem identificadas somente via testes padrão. As provas tradicionais somente enxergam, quando bem feitas, se as informações foram ou não assimiladas. As demandas do presente, e especialmente do futuro, vão muito além da informação pura e simples e tendem a não ter esse elemento como parâmetro central. Avaliar não ficou mais simples, ficou muito mais complexo.
A título de exemplo, optaria, preliminarmente, por uma comparação com jazz. Observe uma banda de jazz e perceba: (i) que o público sabe identificar diferenças entre uma banda que tem qualidade de outra com menor valor; e (ii) se todos os componentes tocarem solo, também saberão, razoavelmente, identificar quem toca bem e quem não toca tão bem. Insisto nesta comparação, mais uma vez, para destacar que avaliar implica em estimular, sempre que possível, o trabalho em grupo, ressaltando o quão essencial é criar em equipe, mas que tal processo também demanda, em geral, individualizar, permitindo perceber no grupo o que cada um efetivamente fez ou deixou de fazer.
Assim, nas boas “performances” de jazz, ao longo da apresentação coletiva, cada instrumentista é convocado a tocar separadamente. Neste caso, é esperado que o solo contivesse todos os compassos da música, evitando os chamados “riffs”, frases curtas e repetidas de poucas notas. Mesmo assim, talentosos músicos saberão tocar “riffs” com habilidade e competência, alterando suas notas e seus tempos.
Da diversidade e da pluralidade nascem equipes fantásticas, em que, talvez, nenhum deles, individualmente, seja tão diferenciado. Às vezes, o mais discreto e não necessariamente o mais habilidoso instrumentista pode ser, por outras razões, a mola propulsora do grupo. Há, por outro lado, casos de junção de bons músicos sem que os resultados esperados tenham emergido. Há casos desastrosos em que a banda não funciona coletivamente e nem individualmente e o som final sugere mudanças ou reprovações.
Nestes dias próximos do Dia do Professor celebremos aqueles docentes que avaliam para aprovar ou reprovar, mas que vão além. Eles o fazem para conhecer melhor os educandos e ao conhecê-los poder traçar trajetórias específicas que reflitam os caminhos mais adequados de um processo de aprendizagem que demanda ser, cada vez mais, personalizado, ainda que conjugado com grande escala. Parabéns especiais a esses professores que viabilizam quantidade e qualidade e que entendem que todos aprendem, todos aprendem sempre, mas cada qual aprende na sua maneira única.

FONTE :http://reitoronline.ig.com.br/

"Brasil tem boas práticas na educação, mas tem de compartilhá-las pelo País"


Especialista defende que Brasil crie ambiente de colaboração entre escolas e incentive aprendizado baseado em problemas reais, que torne o ensino mais eficiente e próximo ao aluno


Em tempos de crise econômica e austeridade, é ainda mais importante para o Brasil criar um ambiente em que a educação avance e que boas práticas existentes possam ser compartilhadas, diz o especialista britânico David Albury, que participa de projetos educacionais em diferentes partes do país.
Albury é professor visitante de Estudos de Inovação no King's College, em Londres, diretor da Global Education Leaders' Partnership (comunidade de líderes e consultores em educação) e presta consultoria a redes de ensino em 13 países.

Na cidade gaúcha de Viamão (RS), ele participa de um plano na rede municipal a partir da metodologia chamada de problem-based learning (ensino baseado em problemas), em que questões relevantes aos alunos e suas comunidades são o ponto de partida para o aprendizado prático e para a busca de soluções pelos próprios estudantes.
Albury esteve em São Paulo recentemente para participar do seminário "Liderança e Inovação na Educação", da Fundação Santillana. Ele conversou com a BBC Brasil por telefone.

BBC Brasil - Como é o projeto do qual o senhor participa em Viamão (RS)?
David Albury - Pela (metodologia de) "ensino baseado em problemas", os estudantes participam de projetos e os usam para adquirir conhecimento. Os projetos levantam questões (relativas à comunidade), e os estudantes apresentam ao restante da escola o resultado das pesquisas.
Os estudantes ficam realmente motivados e ganham mais aptidão a aprender, pesquisar, desenvolver habilidades.

BBC Brasil - Como melhorar o desempenho dos estudantes brasileiros, atualmente muito mal posicionados em rankings internacionais de educação?
Albury - De fato é um grande problema: como dar a todos os estudantes do país as habilidades e os conhecimentos que eles precisam para serem bem-sucedidos e prosperarem no século 21.
A primeira coisa é dar condições e apoio para que as escolas e professores desenvolvam boas práticas de ensino, usando exemplos do Brasil e de outras partes do mundo.
É preciso fazer com que as escolas trabalhem juntas de modo que sintam que estão colaborando com um ensino do século 21. Se você cria esse ambiente nas instâncias municipais, estaduais e federal, acho que o (cenário do) país é promissor.
Há centenas de exemplos de inovação de grandes escolas, mas é preciso criar as condições para que essas práticas sejam compartilhadas.

BBC Brasil - Que boas práticas viu no país?
Albury - Fiquei impressionado em especial com uma escola de Viamão em que os estudantes, em grupos, estão realizando projetos nas comunidades ao redor (por exemplo, com reciclagem e arte nas aulas). Dá para ver pelo seu envolvimento que eles estão aprendendo a pesquisar e a resolver problemas.
Há outros projetos em andamento pelo país, como o Escola Digital (plataforma gratuita com videoaulas, jogos e outros recursos de apoio à educação), que ajuda muitas escolas no Brasil a desenvolver recursos digitais e usar tecnologia.

BBC Brasil - Como disseminar mais essas práticas? Uma boa escola pode ajudar uma que não vá tão bem?
Albury - Muito do meu trabalho é ajudar grupos (de determinadas escolas) a se juntarem e compartilharem (seu trabalho), reunindo os professores e elaborando workshops que resultem na criação, em conjunto, de práticas de trabalho com os estudantes.
Espero conseguir também trazer processos e redes de contato do redor do mundo para ajudá-los nesse processo colaborativo e a pesquisar com os próprios estudantes o que eles acham relevante em sua educação.

BBC Brasil - O país ainda tem uma enorme desigualdade na educação. Como combater isso?
Albury - Mesmo nas escolas (que trabalham) em circunstâncias muito difíceis, mesmo nas escolas cujas crianças vêm de famílias muito pobres, é possível criar um ambiente fantástico de aprendizado, que envolva o estudante e o permita desenvolver habilidades básicas.
Claro que é algo de longo prazo, mas o que temos de fazer é juntar a energia e paixão dessas escolas e desses professores.

FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2015-10-12/brasil-tem-boas-praticas-na-educacao-mas-tem-de-compartilha-las-pelo-pais.html