sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Prefeituras fecham salas de educação integral para criar vaga no ensino infantil

Até 2016, municípios devem matricular todas as crianças de 4 e 5 anos na pré-escola; hoje 18% das crianças estão fora da rede


Para atender a meta de matricular todas as crianças de 4 e 5 anos na pré-escola até 2016, redes municipais estão transformando vagas de turno integral em cadeiras de turno parcial. Foz do Iguaçu (PR) é uma delas, desde o início deste ano a prefeitura deixou de oferecer matrícula em período integral para crianças nessa idade.
O objetivo é criar rapidamente vagas para suprir a obrigatoriedade até 2016. Em 2013, 71,8% das crianças nessa faixa etária eram atendidas em unidades escolares no município, segundo dados da Pnad. Com a redução dos turnos, a rede passou de 3.200 para 4.888 matrículas na pré-escola – além das cadeiras que serão disponibilizadas em seis novos Centros Municipais de Educação Infantil.
“Conseguimos assim criar vagas para toda a demanda na espera que tínhamos”, conta Fabiana Vilela, diretora de educação infantil da secretaria municipal. A prefeitura está fazendo campanha para que os pais de crianças nessa idade coloquem já seus filhos na escola. “Estimamos que haja ainda uma demanda de cerca de mil alunos, que vão se dividir entre escolas públicas e privadas.”
A manobra não foi bem recebida por pais que trabalham e antes podiam deixar seus filhos sob os cuidados da escola durante todo o período de trabalho, por seis horas ou mais. Segundo o Conselhor Tutelar do município, cerca de 50 reclamações foram feitas neste ano. “Como isso não é ilegal, não podemos fazer nada”, afirma Raphael Pereira, conselheiro de Foz do Iguaçu.
A mudança de turno também deve ser adotada por Blumenau (SC) para atingir sua meta. Em 2014, todas as crianças de 4 e 5 anos matriculadas em escolas do município estudavam em turno integral. A partir do próximo ano, 15% das crianças de 5 anos passarão para o turno parcial.
A medida também visa a criação de vagas sem grande aumento no investimento público. De acordo com a secretaria municipal, desde agosto há 1.200 crianças em idade pré-escolar na fila de espera. A cidade tinha, em 2013, 21,7% de suas crianças entre 4 e 5 anos fora da escola. 
1 milhão de vagas precisam ser criadas
As prefeituras correm contra o tempo para cumprir o primeiro prazo do Plano Nacional de Educação, aprovado neste ano. A primeira meta estipula que a partir de 2016 todas as crianças de 4 e 5 anos estejam matriculadas na pré-escola.
Para isso, as redes precisam criar mais de 1 milhão de vagas nessa etapa de ensino. Em 2013, 81,4% das crianças nessa idade frequentavam a escola, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).
“Essa é uma saída para chegar à meta”, afirma Cleuza Repulho, presidente da União Nacional de Dirigentes Municipais de Educação. “As prefeituras estão usando uma prerrogativa da lei porque nossa obrigatoriedade é de atendimento e não de atendimento integral”, completa.
Para Alejandra Meraz Velasco, coordenadora do movimento Todos pela Educação, o uso de vagas de turno parcial na educação infantil não é problema, desde que a mudança seja articulada com outras políticas de assistência social.
“É importante ser entendido que na educação tratamos com pessoas. Se a criança já está na escola, na educação integral, mudar para essa criança é complicado. O que é importante é ver se essa é a única possibilidade. A rede tem que tentar articular com outras secretarias, como a de esportes ou assistência social. É importante cuidar da transição dessa criança de um sistema para outro.”
Imediatismo contra meta futura
A solução de reduzir os turnos na educação integral levanta duas questões: uma possível redução da qualidade do ensino e a redução no atendimento em ensino integral, outra meta do Plano Nacional de Educação.
No Rio Grande do Sul, Estado em que 36,2% das crianças nessa faixa etária estavam fora da escola em 2013, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) vem acompanhando a ampliação do ensino infantil de perto.
“Alguns municípios estão muito longe de universalizar a pré-escola, principalmente as médias e grandes cidades. E o que temos visto é que essas cidades não estão se utilizando do Proinfância [programa federal de apoio para construção de unidades] suficientemente para criar as vagas necessárias”, aponta Hilário Royer, auditor público do TCE.
A partir deste ano, seu grupo passará a acompanhar quantas são as vagas de turno integral e turno parcial para que os municípios “não dividam uma vaga para duas crianças”.
“Estamos preocupados que reduza a qualidade da educação. Se você olhar sob a ótica das famílias, quatro horas de turno significa que a criança terá um turno descoberto para os pais que trabalham, que vão acabar deixando essa criança com um vizinho, um irmão”, afirma.
Além disso, o grupo teme que de olho no prazo imediato de universalização das vagas em educação infantil em 2016, os municípios deixem de lado a meta 6 do PNE, que exige que 25% das matrículas da educação básica sejam em turno integral até 2020, aponta Débora Brondani, auditora externa do TCE. 
Atraso na construção de unidades escolares atrapalha municípios
Secretária Municipal de Educação de São Bernardo do Campo (na Grande São Paulo), Repulho diz que não usará da estratégia de reduzir vagas no turno integral em sua cidade, mas sofre com o atraso de obras das unidades escolares do Proinfância, programa federal de apoio a construção de centros de educação infantil.
Segundo ela, o município tem oito unidades que começam ou retomam a construção neste mês e, sem atrasos, ficarão prontas em dezembro do próximo ano, às vésperas da obrigatoriedade da educação infantil universalizada.
Os números do Programa Nacional de Reestruturação e Aquisição de Equipamentos para a Rede Escolar Pública de Educação Infantil (Proinfância) mostram que, em média, a construção de unidades pelo Proinfância tem demorado 824 dias.
Além de problemas com atraso na obra, 28% das secretarias municipais que partipam do programa relataram ao Tribunal de Contas da União (TCU) que inadequações do projeto dos centros de educação infantil ao local em que são instalados dificultam o início das atividades. 
Procurado pela reportagem, o Ministério da Educação não se pronunciou sobre a substituição de vagas integrais por vagas parciais na educação infantil.

1 em cada 5 alunos do ensino fundamental não sabem o básico de matemática

Resultados insatisfatórios na Prova Brasil mostra necessidade de metas claras de aprendizagem, dizem especialistas


Os dados da Prova Brasil de 2013 mostram que 24,45% dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental estão abaixo do nível mais baixo de proficiência. Em matemática, esse percentual é 20,41%. No 5º ano, 24,16% estão na faixa que vai até o primeiro nível em português e 5,81% estão abaixo do primeiro nível em matemática. Em português, significa dizer que esses alunos não são capazes de identificar o assunto ou o personagem principal em um texto.
Para especialistas, os resultados insatisfatórios mostram a necessidade de estratégias e metas claras para o ensino. De acordo com os dados da última avaliação disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), há, entre alunos de diferentes Estados brasileiros e até mesmo de uma mesma escola disparidades no aprendizado.
"É preciso uma base nacional comum, ter claro o que é essencial que o aluno aprenda, para que o sistema trabalhe de forma com que essas habilidades sejam obtidas", diz o coordenador de Projetos da Fundação Lemann, Ernesto Faria. "Uma estrutura padrão que oriente o sistema, não o engesse, mas oriente o trabalho dos professores", explica.
"É preciso pensar formas de ensino para engajar, pensar em um projeto que permita trabalhar com alunos de níveis de proficiência diferentes e que possa dar suporte ao professor", diz Faria.
Menos de um quarto dos alunos têm aprendizado adequado
Utilizando o critério do movimento Todos pela Educação, 23,6% deixam o ensino fundamental com desempenho acima do considerado adequado em português e 11,2%, em matemática. Entre os alunos do 5º ano, esses índices são, respectivamente, 39,9% e 34,7%.
"Mesmo que haja alunos fora do nível adequado, o que a gente gostaria de ver é os alunos avançando em direção a esse nível. Mas, o que os números mostram é que ainda há crianças muito distantes do nível adequado, uma concentração grande no Nível 1", diz a coordenadora-geral do movimento Todos Pela Educação, Alejandra Meraz Velasco.
Ela concorda com Faria quanto à necessidade de uma base nacional comum que estabeleça metas claras. "A avaliação norteia quem entende o que está sendo avaliado, quem consegue decodificar o que vai ser avaliado, adapta o currículo, mas as redes mais frágeis não conseguem enxergar as metas nem o caminho. O que acontece em outros países é que se tem definido o currículo e o que se deve aprender ano a ano, avalia-se então o que se deve aprender. No Brasil, adivinha-se o que vai ser avaliado com base nas provas anteriores", diz.
Os primeiros passos para a construção de uma base nacional comum curricular foram dados este ano. Trata-se também de uma promessa da presidenta Dilma Rousseff para o segundo mandato.
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Quanto à divulgação dos dados, segundo Alejandra, o Todos pela Educação faz parte de discussões feitas pelo Inep sobre formas de qualificar os dados. Uma das questões discutidas é disponibilizar, por nível de proficiência, os tipos de questão que provavelmente os alunos dominam para que os professores tenham mais clareza para trabalhar as principais dificuldades em sala de aula. Outra questão em discussão é a disponibilização de iniciativas pedagógicas aos docentes.
O boletim divulgado pelo Inep mostra o percentual de estudantes na escola, no estado e no país em cada um de até dez níveis de proficiência. A quantidade de níveis varia de acordo com a série e com a disciplina avaliada. Neste ano, já houve mudanças na divulgação. As escolas podem consultar também a interpretação pedagógica dos níveis de desempenho. Diante de cada nível de proficiência, há uma descrição das habilidades que os alunos provavelmente já dominam. Além disso, podem comparar o desempenho com escolas próximas e com nível socioeconômico semelhante.
A Prova Brasil é um dos componentes do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), considerado um importante indicador de qualidade do ensino. O índice vai até dez e é calculado de dois em dois anos. O Ideb de 2013 foi divulgado pelo governo no início de setembro. A meta estimada de 4,9 para anos iniciais foi a única cumprida pelo país, que obteve índice de 5,2.

Escolas apostam em acompanhamento e reforço para reduzir evasão no ensino médio

Em 2013, 659 mil estudantes abandonaram as cadeiras do ensino médio; escola precisa criar mecanismos para encantar aluno, afirma especialista

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Em Foz do Iguaçu, alunos do ensino médio participam de laboratório de 
física no projeto Encantar para Ficar
O abandono escolar de jovens no ensino médio e a dificuldade em melhorar os índices de conclusão têm ocupado parte importante do debate sobre a educação básica nos últimos anos. Dos 8,2 milhões de jovens matriculados no ensino médio em 2013, 659 mil abandonaram o estudo (8,1%) e 977 mil foram reprovados naquele ano (11,9%), segundo o Censo Escolar compilado na plataforma Qedu.
"O atraso no ensino médio impacta no mercado de trabalho porque reduz a qualidade do trabalhador e repercute no ensino superior, onde sentimos as dificuldades de formação do aluno ", analisa João Cardoso Palma Filho, especialista em política educacional da Unesp.
O quadro é mais preocupante no primeiro ano do ensino médio, quando o índice de abandono chega a 10,1% (339 mil estudante) e o de reprovação atinge 16,7%.
"A escola precisa conhecer melhor seu estudante, sua trajetória escolar e sua história de vida. Isso para que o professor possa perceber não apenas as lacunas de aprendizado, mas também lacunas relacionadas a aspectos emocionais, como auto-estima e autonomia", avalia Rosângela Fritsch, professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e pesquisadora da evasão de alunos na fase final da educação básica.
A fim de entender quais são as dificuldades enfrentadas nessa etapa do ensino e combatê-las surgem projetos que reúnem universidade e escolas em diferentes áreas do País.
Acompanhando três escolas públicas de São Leopoldo (RS), Rosângela explica que características dos alunos, como o alto índice de matrículas no período noturno, presença de alunos em atraso escolar e que trabalham, explicam parte importante do abandono escolar.
"É marcante esse círculo vicioso entre a reprovação, que leva à defasagem idade-série e ao abandono escolar", afirma a pesquisadora. Nas escolas estudadas, o aluno que está na idade certa para sua escolaridade tem 148% mais chances de se formar no ensino médio que aquele que já está atrasado.
“Percebemos que por conta da dinâmica da escola, os professores sabiam muito pouco de seus alunos. Nós, então, apresentamos as informações coletadas sobre os estudantes para eles e começamos a discutir propostas para que as escolas tivessem melhores resultados”, conta.
Em parceria com os professores dessas escolas, uma das atividades feitas foi acompanhar os alunos que ao longo dos bimestres mostravam ter desempenho abaixo do adequado. “Fizemos uma proposta pedagógica de trabalho específica para eles e conseguimos que não houvesse reprovação nesse ano.”
Segundo Rosângela, mudanças simples na escola ajudam a criar um ambiente de troca que beneficie o aprendizado e a continuidade dos estudos. Algumas unidades de São Leopoldo mudaram adiantaram o jantar para o horário de início das aulas para aproximar os estudantes trabalhadores.
“Muitos desses alunos saem do trabalho direto para a escola, cansados e muitas vezes com fome. A escola criou a alternativa de antecipar a janta e trouxe os professores para a refeição. Assim, os alunos que chegam cedo podem tirar dúvidas e conversar com os professores. É uma ação bem simples, mas que pode aumentar a interação entre alunos e professores.”
Aluno precisa ser encantado pela escola
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Apesar de serem opcionais, cerca de 70% dos estudantes participam das atividades para o ensino médio no contraturno
No ano passado, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) apresentou os resultados de uma pesquisa que perguntava a jovens de baixa renda o que eles pensavam sobre a escola. Entre os achados, a pesquisa mostrou que os alunos não veem utilidade em muitas das disciplinas oferecidas. Apenas 30,5% consideravam biologia uma matéria útil, 28,8% percebiam valor no ensino de química e 27,6% no ensino de física.
Sentido na prática em escolas de Foz do Iguaçu (PR), esse cenário deu origem ao projeto Encantar para Ficar, criado por pesquisadores da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila). Localizado em uma cidade fronteiriça com o Paraguai, a coordenadora, Catarina Fernandes, conta que as escolas notavam a grande perda de alunos ao longo do ano.
"Uma sala que começava com 30 alunos chegava a julho com 15. Percebíamos que muitos deixavam a escola e eram atraídos para trabalhar com contrabando e outras atividades ilegais. Em entrevistas, eles diziam que parte do motivo do abandono era por não entenderem o conteúdo passado na escola", conta.
"A escola precisa criar mecanismos para encantar este aluno do ensino médio para que ele fique dentro da escola. Ele precisa se sentir dentro da escola, criar um sentimento de pertencimento àquela unidade escolar."
No projeto, alunos de licenciatura em ciências naturais da universidade e pesquisadores acompanham as aulas do ensino médio das escolas e, a partir das dificuldades dos alunos e do conteúdo apresentado pelos professores, fazem uma programação opcional de atividades em laboratório para os estudantes no contraturno. "É um projeto a título de reforço escolar, mas que também cria interesse e aumenta a autoestima dos estudantes", avalia.
Desde fevereiro, os estudantes que quiserem podem participar das aulas em laboratório, visitas à universidade, ao observatório e outras propostas dos monitores do projeto. Ao longo do ano, Catarina conta que 70% dos estudantes de 1o ano se envolveram no projeto e, entre eles, não houve abandono escolar.
"Para o próximo ano devemos acompanhar os estudantes que já participaram do projeto e muitos deles serão monitores dos novos alunos do ensino médio, que entrarão no ano que vem. Após terem participado de uma feira de ciências, eles se sentem prontos para ajudar os futuros colegas e têm orgulho de participar das atividades e isso não podemos tirar deles", afirma.

Professor precisa falar menos e provocar mais, diz educador

Em entrevista, Fábio Mendes, autor de “A Nova Sala de Aula”, defende ensinar alunos a aprender por conta própria

Em “A Nova Sala de Aula”, Fábio Mendes, professor, doutor em Filosofia e autor de cinco livros sobre aprendizado e educação, defende que para viver em um mundo sob constante mudança é preciso formar jovens que tenham papel ativo na construção de seu conhecimento, renovando os saberes continuamente.
“O mais importante é formar habilidades. Não importa a lista de conteúdos aprendidos, se a pessoa não souber aprender, ela vai acabar ficando desatualizada”, diz.
Como alternativa à tradicional aula expositiva, Fábio propõe a adoção de oficinas de estudo. Com o método, os conteúdos se tornam meio para o desenvolvimento da autonomia no aprendizado e, a sala de aula, o ambiente. Durante o processo, o professor deve apresentar o material que servirá de base para o estudo (textos ou o próprio livro didático), explicar o método passo a passo, e acompanhar a prática, orientando os alunos. Ao final, os estudantes produzem as sínteses e fazem exercícios atestando se avançaram no aprendizado.
“O ponto principal é fazer com que eles (estudantes) notem que conseguem aprender por conta própria. Não é o professor que ensina, mas eles que aprendem. Quantas aulas os alunos têm sobre como estudar? Isso não faz parte do currículo escolar. E quantas vezes ao longo da vida escolar demanda-se que eles estudem? Você se motivaria a fazer uma atividade que não te dizem como fazer e te cobram o tempo todo?”, questiona o autor.
- No livro “A Nova Sala de Aula”, você defende que é preciso dar autonomia aos estudantes no processo de aprendizado. Como o método das oficinas atua para atrair os interesses dos alunos? 
Fábio Mendes - Os alunos estão desinteressados porque eles não conseguem notar no dia a dia da escola que eles produzem algo e que eles são escutados. Quando eu proponho as oficinas, a primeira questão que surge é exatamente essa. Se os alunos estão desmotivados, como vão se envolver em uma atividade na qual eles vão ter que ler, vão ter que se concentrar, vão ter que ter foco? O que faz funcionar as oficinas é, na verdade, o modo de conduzir a atividade. É essencial a movimentação do professor. Sem isso, os alunos acabam fazendo outras atividades.
Se o professor mantém a circulação e conduz a oficina, com etapas muito simples, de fácil execução, esse aluno desmotivado sente que consegue fazer pequenos progressos. Eu costumo pedir para que os alunos façam uma autoavaliação anônima deles e da oficina, sobre essa atividade de tentar aprender a estudar em sala de aula. A aprovação dos alunos é massiva. Muitos comentam “por incrível que pareça, eu consegui estudar”, “o tempo passou rápido”.
- Há uma idade ideal ou série para iniciar as oficinas de estudo? Elas se aplicam melhor ao ensino médio do que ao fundamental?
Fábio Mendes – A oficina é uma forma de resgatar alunos que perderam a confiança de que podem gostar de estudar. É um modo despertar o interesse pelo conteúdo em alunos que estão completamente desconectados. Isso é típico de estudantes do ensino médio. Mas as oficinas podem ser aplicadas desde o 5º, 6º anos do ensino fundamental.
O ponto principal é fazer com que eles notem que conseguem aprender por conta própria. Não é o professor que ensina, mas eles que aprendem. Quantas aulas os alunos têm sobre como estudar? Isso não faz parte do currículo escolar. E quantas vezes ao longo da vida escolar demanda-se que eles estudem? Você se motivaria a fazer uma atividade que não te dizem como fazer e te cobram o tempo todo? Esse é o centro das oficinas. Elas não precisam ser implantadas da noite pro dia, em todos os períodos, por todos os professores, com todos os conteúdos. Muito pelo contrário, pode ser uma aula especial que o professor propõe uma ou duas vezes por trimestre, mas que dá ferramentas para o aluno poder estudar por conta própria.
– Você faz formação de professores em como aplicar a didática das oficinas? Como é a receptividade à didática?
Fábio Mendes - Sim. O mais importante das oficinas é a mudança de perspectiva do professor. O professor se dá conta que não adianta um aluno tirar 10 em toda vida escolar, se ele sair da educação básica sem conseguir construir o seu conhecimento com autonomia. Alguns professores, no primeiro momento, resistem: “esse guri está querendo me ensinar a dar aula?”. Mas logo depois eles veem que não estou querendo ensinar nada para ninguém, estou apresentando uma perspectiva para trabalhar dificuldades que eles enfrentam. No final, a aprovação dos professores é maior até que a dos alunos. Entre os estudantes, a avaliação positiva do trabalho não baixa de 80%. Entre os professores, está acima de 90%. Os comentários principais são “finalmente apresentaram uma proposta que pode ser aplicada no dia a dia da escola”, e “essa formação não ficou só no discurso e mostrou como trabalhar em sala de aula”.

Com raciocínio e sem cópia: veja como deve ser lição de casa na era da internet

Em vez de memorização e cópia , um jogo de raciocínio para ser completado pelos estudantes com a ajuda dos pais

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Lição de casa


Em vez de memorização e cópia de palavras, um jogo de raciocínio para ser completado pelos estudantes com a ajuda dos pais. Em vez de pesquisar e copiar informações sobre um tema de história, o aluno grava um vídeo com a interpretação dele dos conceitos estudados e publica-o no YouTube.
As ideias acima são parte de uma nova forma de encarar as lições de casa, e algumas começam a ser aplicadas no Brasil.
Num momento em que a tecnologia muda o acesso à informação e novas habilidades são exigidas dos estudantes, educadores e especialistas têm repensado os formatos e objetivos das tarefas extraclasse.
"Quando a informação era muito restrita à sala de aula, a lição de casa era voltada apenas a exercícios de fixação e de prática do conteúdo", diz Claudio Franco, diretor de novos negócios da Mindlab, empresa de tecnologias educacionais provedora de escolas públicas e privadas.
Hoje, ante a informação inesgotável da internet, "o dever de casa deve estar mais ligado ao aluno pesquisando e construindo conhecimento, para que a sala de aula seja um espaço de debate e síntese de conceitos".
A empresa aplica, como tarefas de casa, jogos de raciocínio (online ou de tabuleiro) que reforcem conceitos estudados em classe. Também estimula a produção de vídeos por parte dos alunos, em que eles sintetizem o que aprenderam na aula.
Experiências
Em Natal (RN), por exemplo, escolas públicas têm adotado jogos – em sala de aula e em casa – como parte do aprendizado.
A Clickideia, provedora de conteúdo e metodologia pedagógica, também tem desenvolvido exercícios de casa que envolvam jogos virtuais e atividades lúdicas. A ideia é que as atividades tenham, ainda, a função de avaliar o aprendizado – forçando o aluno a refazer etapas que tenha errado e avisando ao professor o que foi acertado.
A escritora e jornalista Ana Kessler, mãe de Ana Beatriz, 9, aluna da rede privada em São Paulo, diz que, na prática, muitas das lições de sua filha ainda são parecidas com as de antigamente. "E o básico tem de ter mesmo, tabuada ainda é aprendida na memorização. Como as crianças de hoje são muito dispersas e fazem tudo ao mesmo tempo, tarefas que ajudem a fixar são importantes."
Ao mesmo tempo, Ana vê Bia mais entusiasmada com tarefas extraclasse diferentes, que também são passadas pela escola: "A classe dela já faz apresentações em PowerPoint, algo que eu só fui fazer quando mais velha. Ou monta uma maquete de pulmão usando garrafas PET. São projetos mais interativos, interessantes e ligados ao dia a dia dela."
Lição ou não?
Em diversos países, o dever de casa tem sido tema de debate nos últimos anos. Tarefas devem ser aplicadas todos os dias, sempre? Qual o volume adequado de lição?
Na China, a pressão excessiva sobre os estudantes levou o Ministério de Educação a ordenar a redução, no ano passado, da quantidade de atividades extraclasse impostas.
"Projetos como cortar e colar ou desenhar muitas vezes são ineficientes (para a assimilação de conteúdo), mesmo que os professores os tenham indicado com a melhor das intenções", opina.
"Há formas mais eficazes de demonstrar o aprendizado: em vez de construir um modelo do Sistema Solar, estudantes podem representar os extremos de temperatura dos planetas, os períodos de rotação da Terra, a importância da inércia e gravidade ou criar um vídeo para mostrar seus conhecimentos de cada passo."
Ana Kessler, mãe da Ana Beatriz, não se incomoda tanto com o fato de sua filha ter bastante lição para fazer - apesar de muitas atribuições, como comprar e imprimir materiais diversos - recaírem sobre os pais. "Para muitas crianças de cidades grandes, não estar fazendo lição de casa muitas vezes significa estar diante da TV. E aprender a fazer muitas tarefas faz parte da vida."
Já Alfie Kohn, outro pesquisador do assunto nos EUA – e duro crítico da lição de casa em geral –, sugere, em artigo, uma participação mais ativa dos alunos na hora de decidir que tarefas devem ou não ser aplicadas.
"Use a lição como uma oportunidade de envolver os estudantes", diz ele em artigo. "Uma discussão a respeito pode ser válida por si só. Se as opiniões forem distintas, a decisão sobre o que fazer – votar? Conversar até se chegar num consenso? Buscar um meio-termo? – desenvolverá habilidades sociais e crescimento intelectual."
Participação dos pais
No Brasil, onde deficiências de educação em geral ainda são graves, pesquisadores, como o Instituto Ayrton Senna, veem a lição como um aliado importante para a fixação do conteúdo aprendido em aula e como um elo entre a escola e a família dos alunos.
"A lição serve para continuar o desenvolvimento do jovem, trabalhar conceitos e criar um vínculo com as famílias", diz Sandra Garcia, diretora pedagógica da Mindlab.
Ao jogar com o filho um jogo pedagógico, "os pais verão como os filhos pensam, resolvem desafios, lidam com a perda", opina Garcia – para quem esse momento qualifica o tempo passado entre pais e filhos.
Ricardo Falzetta, gerente de conteúdo do movimento Todos Pela Educação, elogia exercícios que envolvam os pais, mas ressalta que a participação destes na lição de casa dos filhos deve ser cuidadosa e limitada.
"A função principal da lição é diagnosticar a autonomia dos alunos em relação ao conteúdo", diz. "A família tem que estar perto, perguntar se o filho fez a lição ou teve dúvidas, oferecer um ambiente com iluminação e silêncio, ajudar desde que não de forma recorrente, mas não dar a solução da tarefa."

Internet e TV levam escola a 38 mil alunos no Amazonas

Secretaria de Estado estima que ainda faltam 8 mil professores para suprir plenamente a rede de ensino convencional


Divulgação/Seduc
Estúdio de gravação do Centro de Mídias

A falta de infraestrutura aliada a peculiaridades geográficas tem motivado a implantação de inovações tecnológicas na educação do Amazonas, nos últimos sete anos. No Estado mais extenso do país, com os dois maiores arquipélagos fluviais do mundo em quantidade de ilhas (Mariuá e Anavilhanas) e com 25% da população morando em comunidades isoladas, o acesso ao ensino médio é prejudicado pela falta de transporte e pelo fornecimento irregular de energia elétrica. Além disso, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc) estima que ainda faltam 8 mil professores para suprir plenamente a rede de ensino convencional.

Para lidar com essa realidade, o Centro de Mídias de Educação do Amazonas surgiu com a proposta de levar escola aos alunos através de satélites e videoaulas. Atualmente, o projeto, que já ganhou 12 prêmios nacionais e internacionais, mobiliza 3 mil professores para atender pouco mais de 38 mil alunos por ano, divididos e 2.280 turmas, em todos os 62 municípios do Estado.
“Há dez anos tomamos a decisão de mudar a educação local, mas a implantação do projeto aconteceu em 2007. A gente precisa usar tecnologia para levar atendimento aos estudantes onde quer que eles estejam. Ainda assim, só atendemos 50% das quase mil comunidades isoladas pelo estado, ainda tem bastante público para ser atendido”, explica José Augusto de Melo Neto, secretário executivo da Seduc e diretor do Centro de Mídias desde sua concepção até este ano.
Apesar do conteúdo à distância, o Centro de Mídias tem a preocupação em desenvolver uma metodologia presencial. Dos estúdios localizados em Manaus, professores especialistas em suas disciplinas ministram as aulas sempre ao vivo e com um sistema de interatividade IPTV (internet por televisão). Do outro lado, em sala de aula, um professor presencial desenvolve as atividades propostas e complementa a formação.
“O professor presencial tem uma função pedagógica mais ativa que a de um tutor. Ele precisa atuar como professor para o projeto dar certo, é o elemento chave desse processo. Ele precisa motivar a participação dos alunos, é um meio termo entre a Educação à Distância (EAD) e presencial. Cada vez mais o caminho é a descentralização: o professor tem que ter autonomia. Ele precisa ter responsabilidade nas notas dos alunos”, diz Neto.
As dúvidas dos alunos podem ser sanadas diretamente em sala de aula ou indiretamente, através de uma assessoria pedagógica online com chat e email. As aulas também ficam gravadas no portal do programa em casos de revisão e reposição. O conteúdo segue orientação do Ministério da Educação (MEC) e cumpre as 800 horas/aula por ano, como prevê a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).
De acordo com a Seduc, metade dos alunos do projeto submetidos a avaliações nacionais como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) tiveram média superior à estadual. A taxa de evasão coincide com a de reprovação e varia entre 5% a 10% no ano, abaixo da média nacional, 24,3% em 2012, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Piso do professor vai a R$ 1.918; valor é 34,4% menor que 'mínimo necessário'

Criada em 2008, lei institui salário mínimo para professor de escola pública e 1/3 da jornada de trabalho para planejamento

Aula do ensino médio em escola pública de São Paulo

O Ministério da Educação anunciou nesta terça-feira (6) o aumento do piso nacional do professor para R$ 1.917,78. O valor inicial para professores que trabalham 40 horas semanais e são formados no ensino médio é 34,4% menor que o salário mínimo necessário, equivalente a R$ 2.923,22, segundo o Dieese.
O reajuste significa um aumento de 13,01% em relação a 2014 e é mais que o dobro do primeiro piso instituído em 2008 (R$ 950).
Apesar da valorização do mínimo nos últimos anos, o salário médio do professor ainda  é muito menor do que o de profissionais de mesma formação. Dados da Pnad 2012, presentes no Relatório de Observação sobre as Desigualdades na Escolarização do Brasil, apontam que em média o docente de educação básica ganha o equivalente a 51% dos salários de outros profissionais. 
Uma das metas previstas no Plano Nacional de Educação, assinado em 2014, estabelece prazo de seis anos para equiparação do salário dos professores ao dos demais profissionais com escolaridade equivalente.
"A lei teve um impacto bastante positivo de instituir um valor mínimo nacional. Mas, ainda que com todos os reajustes, ele ainda não é um valor expressivo para tornar a carreira do magistério atraente", indica a professora Maria Dilnéia Espíndola Fernandes, pesquisadora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. 
Tempo para planejar aula
Além do valor ser considerado baixo, muitas redes municipais e estaduais ainda não cumprem a lei, que indica o vencimento mínimo sem benefícios e um terço da jornada fora de sala de aula, afirma Roberto Leão, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).
De acordo com levantamento da CNTE feito em maio de 2014, em ao menos oito das 27 redes estaduais os professores não tinham um terço do seu tempo dedicado apenas a planejamento.
"Uma questão tão importante quanto o piso é a hora-atividade, um terço do tempo do professor deve ser para preparar aula, estudar, ter contato com a comunidade. Se a rede paga o piso e não dá esse tempo para o professor, está pagando menos do que isso. Força os professores a trabalhar em outros horários sem receber por isso", comenta Juca Gil, pesquisador da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
Redes pedem ajuda da União para pagar piso
Desde 2008, redes municipais e estaduais pedem mudança da regra de reajuste e contribuição da União para pagar o piso dos professores.
Em 2009, os governadores de Mato Grosso do Sul, Goiás, Piauí, Rio Grande do Sul, Roraima e Santa Catarina entraram com uma ação direta de inconstitucionalidade contra a lei do Piso, que foi negada pelo Supremo Tribunal Federal. 
Municípios e Estados que não cumprem o piso, como o Rio Grande do Sul, pedem complementação da União para alcançarem o valor do pagamento mínimo dos docentes. 
Em nota ao iG, Vieira da Cunha, secretário da Educação do Rio Grande do Sul, reivindica recursos da União. "Todos nós queremos e gostaríamos de dar um reajuste como este, mas, infelizmente, a situação que encontramos nos cofres públicos não nos permite fazê-lo com recursos próprios."
De acordo com o presidente da Confederação Nacional dos Municípios, Paulo Ziulkoski, o novo piso significará, no total, um aumento de cerca de R$ 7 bilhões nos gastos dos municípios. 
"Com certeza, teremos municípios e estados com dificuldade", disse Cleuza Repulho, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). "Precisaremos da regulamentação dos royalties do petróleo e do PNE em funcionamento para garantir novos recusos. A arrecadação dos Estados e municípios foi menor que a esperada", acrescentou. 
Segundo Cleuza, a entidade voltará a se reunir com o ministro até o fim do mês para cobrar maior participação da União nos gastos dos entes federativos com educação. Também pedirá a retomada do grupo de trabalho para revisão do reajuste do piso.
* Com informações da Agência Brasil