sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Professor precisa falar menos e provocar mais, diz educador

Em entrevista, Fábio Mendes, autor de “A Nova Sala de Aula”, defende ensinar alunos a aprender por conta própria

Em “A Nova Sala de Aula”, Fábio Mendes, professor, doutor em Filosofia e autor de cinco livros sobre aprendizado e educação, defende que para viver em um mundo sob constante mudança é preciso formar jovens que tenham papel ativo na construção de seu conhecimento, renovando os saberes continuamente.
“O mais importante é formar habilidades. Não importa a lista de conteúdos aprendidos, se a pessoa não souber aprender, ela vai acabar ficando desatualizada”, diz.
Como alternativa à tradicional aula expositiva, Fábio propõe a adoção de oficinas de estudo. Com o método, os conteúdos se tornam meio para o desenvolvimento da autonomia no aprendizado e, a sala de aula, o ambiente. Durante o processo, o professor deve apresentar o material que servirá de base para o estudo (textos ou o próprio livro didático), explicar o método passo a passo, e acompanhar a prática, orientando os alunos. Ao final, os estudantes produzem as sínteses e fazem exercícios atestando se avançaram no aprendizado.
“O ponto principal é fazer com que eles (estudantes) notem que conseguem aprender por conta própria. Não é o professor que ensina, mas eles que aprendem. Quantas aulas os alunos têm sobre como estudar? Isso não faz parte do currículo escolar. E quantas vezes ao longo da vida escolar demanda-se que eles estudem? Você se motivaria a fazer uma atividade que não te dizem como fazer e te cobram o tempo todo?”, questiona o autor.
- No livro “A Nova Sala de Aula”, você defende que é preciso dar autonomia aos estudantes no processo de aprendizado. Como o método das oficinas atua para atrair os interesses dos alunos? 
Fábio Mendes - Os alunos estão desinteressados porque eles não conseguem notar no dia a dia da escola que eles produzem algo e que eles são escutados. Quando eu proponho as oficinas, a primeira questão que surge é exatamente essa. Se os alunos estão desmotivados, como vão se envolver em uma atividade na qual eles vão ter que ler, vão ter que se concentrar, vão ter que ter foco? O que faz funcionar as oficinas é, na verdade, o modo de conduzir a atividade. É essencial a movimentação do professor. Sem isso, os alunos acabam fazendo outras atividades.
Se o professor mantém a circulação e conduz a oficina, com etapas muito simples, de fácil execução, esse aluno desmotivado sente que consegue fazer pequenos progressos. Eu costumo pedir para que os alunos façam uma autoavaliação anônima deles e da oficina, sobre essa atividade de tentar aprender a estudar em sala de aula. A aprovação dos alunos é massiva. Muitos comentam “por incrível que pareça, eu consegui estudar”, “o tempo passou rápido”.
- Há uma idade ideal ou série para iniciar as oficinas de estudo? Elas se aplicam melhor ao ensino médio do que ao fundamental?
Fábio Mendes – A oficina é uma forma de resgatar alunos que perderam a confiança de que podem gostar de estudar. É um modo despertar o interesse pelo conteúdo em alunos que estão completamente desconectados. Isso é típico de estudantes do ensino médio. Mas as oficinas podem ser aplicadas desde o 5º, 6º anos do ensino fundamental.
O ponto principal é fazer com que eles notem que conseguem aprender por conta própria. Não é o professor que ensina, mas eles que aprendem. Quantas aulas os alunos têm sobre como estudar? Isso não faz parte do currículo escolar. E quantas vezes ao longo da vida escolar demanda-se que eles estudem? Você se motivaria a fazer uma atividade que não te dizem como fazer e te cobram o tempo todo? Esse é o centro das oficinas. Elas não precisam ser implantadas da noite pro dia, em todos os períodos, por todos os professores, com todos os conteúdos. Muito pelo contrário, pode ser uma aula especial que o professor propõe uma ou duas vezes por trimestre, mas que dá ferramentas para o aluno poder estudar por conta própria.
– Você faz formação de professores em como aplicar a didática das oficinas? Como é a receptividade à didática?
Fábio Mendes - Sim. O mais importante das oficinas é a mudança de perspectiva do professor. O professor se dá conta que não adianta um aluno tirar 10 em toda vida escolar, se ele sair da educação básica sem conseguir construir o seu conhecimento com autonomia. Alguns professores, no primeiro momento, resistem: “esse guri está querendo me ensinar a dar aula?”. Mas logo depois eles veem que não estou querendo ensinar nada para ninguém, estou apresentando uma perspectiva para trabalhar dificuldades que eles enfrentam. No final, a aprovação dos professores é maior até que a dos alunos. Entre os estudantes, a avaliação positiva do trabalho não baixa de 80%. Entre os professores, está acima de 90%. Os comentários principais são “finalmente apresentaram uma proposta que pode ser aplicada no dia a dia da escola”, e “essa formação não ficou só no discurso e mostrou como trabalhar em sala de aula”.

Com raciocínio e sem cópia: veja como deve ser lição de casa na era da internet

Em vez de memorização e cópia , um jogo de raciocínio para ser completado pelos estudantes com a ajuda dos pais

Thinkstock Photos
Lição de casa


Em vez de memorização e cópia de palavras, um jogo de raciocínio para ser completado pelos estudantes com a ajuda dos pais. Em vez de pesquisar e copiar informações sobre um tema de história, o aluno grava um vídeo com a interpretação dele dos conceitos estudados e publica-o no YouTube.
As ideias acima são parte de uma nova forma de encarar as lições de casa, e algumas começam a ser aplicadas no Brasil.
Num momento em que a tecnologia muda o acesso à informação e novas habilidades são exigidas dos estudantes, educadores e especialistas têm repensado os formatos e objetivos das tarefas extraclasse.
"Quando a informação era muito restrita à sala de aula, a lição de casa era voltada apenas a exercícios de fixação e de prática do conteúdo", diz Claudio Franco, diretor de novos negócios da Mindlab, empresa de tecnologias educacionais provedora de escolas públicas e privadas.
Hoje, ante a informação inesgotável da internet, "o dever de casa deve estar mais ligado ao aluno pesquisando e construindo conhecimento, para que a sala de aula seja um espaço de debate e síntese de conceitos".
A empresa aplica, como tarefas de casa, jogos de raciocínio (online ou de tabuleiro) que reforcem conceitos estudados em classe. Também estimula a produção de vídeos por parte dos alunos, em que eles sintetizem o que aprenderam na aula.
Experiências
Em Natal (RN), por exemplo, escolas públicas têm adotado jogos – em sala de aula e em casa – como parte do aprendizado.
A Clickideia, provedora de conteúdo e metodologia pedagógica, também tem desenvolvido exercícios de casa que envolvam jogos virtuais e atividades lúdicas. A ideia é que as atividades tenham, ainda, a função de avaliar o aprendizado – forçando o aluno a refazer etapas que tenha errado e avisando ao professor o que foi acertado.
A escritora e jornalista Ana Kessler, mãe de Ana Beatriz, 9, aluna da rede privada em São Paulo, diz que, na prática, muitas das lições de sua filha ainda são parecidas com as de antigamente. "E o básico tem de ter mesmo, tabuada ainda é aprendida na memorização. Como as crianças de hoje são muito dispersas e fazem tudo ao mesmo tempo, tarefas que ajudem a fixar são importantes."
Ao mesmo tempo, Ana vê Bia mais entusiasmada com tarefas extraclasse diferentes, que também são passadas pela escola: "A classe dela já faz apresentações em PowerPoint, algo que eu só fui fazer quando mais velha. Ou monta uma maquete de pulmão usando garrafas PET. São projetos mais interativos, interessantes e ligados ao dia a dia dela."
Lição ou não?
Em diversos países, o dever de casa tem sido tema de debate nos últimos anos. Tarefas devem ser aplicadas todos os dias, sempre? Qual o volume adequado de lição?
Na China, a pressão excessiva sobre os estudantes levou o Ministério de Educação a ordenar a redução, no ano passado, da quantidade de atividades extraclasse impostas.
"Projetos como cortar e colar ou desenhar muitas vezes são ineficientes (para a assimilação de conteúdo), mesmo que os professores os tenham indicado com a melhor das intenções", opina.
"Há formas mais eficazes de demonstrar o aprendizado: em vez de construir um modelo do Sistema Solar, estudantes podem representar os extremos de temperatura dos planetas, os períodos de rotação da Terra, a importância da inércia e gravidade ou criar um vídeo para mostrar seus conhecimentos de cada passo."
Ana Kessler, mãe da Ana Beatriz, não se incomoda tanto com o fato de sua filha ter bastante lição para fazer - apesar de muitas atribuições, como comprar e imprimir materiais diversos - recaírem sobre os pais. "Para muitas crianças de cidades grandes, não estar fazendo lição de casa muitas vezes significa estar diante da TV. E aprender a fazer muitas tarefas faz parte da vida."
Já Alfie Kohn, outro pesquisador do assunto nos EUA – e duro crítico da lição de casa em geral –, sugere, em artigo, uma participação mais ativa dos alunos na hora de decidir que tarefas devem ou não ser aplicadas.
"Use a lição como uma oportunidade de envolver os estudantes", diz ele em artigo. "Uma discussão a respeito pode ser válida por si só. Se as opiniões forem distintas, a decisão sobre o que fazer – votar? Conversar até se chegar num consenso? Buscar um meio-termo? – desenvolverá habilidades sociais e crescimento intelectual."
Participação dos pais
No Brasil, onde deficiências de educação em geral ainda são graves, pesquisadores, como o Instituto Ayrton Senna, veem a lição como um aliado importante para a fixação do conteúdo aprendido em aula e como um elo entre a escola e a família dos alunos.
"A lição serve para continuar o desenvolvimento do jovem, trabalhar conceitos e criar um vínculo com as famílias", diz Sandra Garcia, diretora pedagógica da Mindlab.
Ao jogar com o filho um jogo pedagógico, "os pais verão como os filhos pensam, resolvem desafios, lidam com a perda", opina Garcia – para quem esse momento qualifica o tempo passado entre pais e filhos.
Ricardo Falzetta, gerente de conteúdo do movimento Todos Pela Educação, elogia exercícios que envolvam os pais, mas ressalta que a participação destes na lição de casa dos filhos deve ser cuidadosa e limitada.
"A função principal da lição é diagnosticar a autonomia dos alunos em relação ao conteúdo", diz. "A família tem que estar perto, perguntar se o filho fez a lição ou teve dúvidas, oferecer um ambiente com iluminação e silêncio, ajudar desde que não de forma recorrente, mas não dar a solução da tarefa."

Internet e TV levam escola a 38 mil alunos no Amazonas

Secretaria de Estado estima que ainda faltam 8 mil professores para suprir plenamente a rede de ensino convencional


Divulgação/Seduc
Estúdio de gravação do Centro de Mídias

A falta de infraestrutura aliada a peculiaridades geográficas tem motivado a implantação de inovações tecnológicas na educação do Amazonas, nos últimos sete anos. No Estado mais extenso do país, com os dois maiores arquipélagos fluviais do mundo em quantidade de ilhas (Mariuá e Anavilhanas) e com 25% da população morando em comunidades isoladas, o acesso ao ensino médio é prejudicado pela falta de transporte e pelo fornecimento irregular de energia elétrica. Além disso, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc) estima que ainda faltam 8 mil professores para suprir plenamente a rede de ensino convencional.

Para lidar com essa realidade, o Centro de Mídias de Educação do Amazonas surgiu com a proposta de levar escola aos alunos através de satélites e videoaulas. Atualmente, o projeto, que já ganhou 12 prêmios nacionais e internacionais, mobiliza 3 mil professores para atender pouco mais de 38 mil alunos por ano, divididos e 2.280 turmas, em todos os 62 municípios do Estado.
“Há dez anos tomamos a decisão de mudar a educação local, mas a implantação do projeto aconteceu em 2007. A gente precisa usar tecnologia para levar atendimento aos estudantes onde quer que eles estejam. Ainda assim, só atendemos 50% das quase mil comunidades isoladas pelo estado, ainda tem bastante público para ser atendido”, explica José Augusto de Melo Neto, secretário executivo da Seduc e diretor do Centro de Mídias desde sua concepção até este ano.
Apesar do conteúdo à distância, o Centro de Mídias tem a preocupação em desenvolver uma metodologia presencial. Dos estúdios localizados em Manaus, professores especialistas em suas disciplinas ministram as aulas sempre ao vivo e com um sistema de interatividade IPTV (internet por televisão). Do outro lado, em sala de aula, um professor presencial desenvolve as atividades propostas e complementa a formação.
“O professor presencial tem uma função pedagógica mais ativa que a de um tutor. Ele precisa atuar como professor para o projeto dar certo, é o elemento chave desse processo. Ele precisa motivar a participação dos alunos, é um meio termo entre a Educação à Distância (EAD) e presencial. Cada vez mais o caminho é a descentralização: o professor tem que ter autonomia. Ele precisa ter responsabilidade nas notas dos alunos”, diz Neto.
As dúvidas dos alunos podem ser sanadas diretamente em sala de aula ou indiretamente, através de uma assessoria pedagógica online com chat e email. As aulas também ficam gravadas no portal do programa em casos de revisão e reposição. O conteúdo segue orientação do Ministério da Educação (MEC) e cumpre as 800 horas/aula por ano, como prevê a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).
De acordo com a Seduc, metade dos alunos do projeto submetidos a avaliações nacionais como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) tiveram média superior à estadual. A taxa de evasão coincide com a de reprovação e varia entre 5% a 10% no ano, abaixo da média nacional, 24,3% em 2012, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Piso do professor vai a R$ 1.918; valor é 34,4% menor que 'mínimo necessário'

Criada em 2008, lei institui salário mínimo para professor de escola pública e 1/3 da jornada de trabalho para planejamento

Aula do ensino médio em escola pública de São Paulo

O Ministério da Educação anunciou nesta terça-feira (6) o aumento do piso nacional do professor para R$ 1.917,78. O valor inicial para professores que trabalham 40 horas semanais e são formados no ensino médio é 34,4% menor que o salário mínimo necessário, equivalente a R$ 2.923,22, segundo o Dieese.
O reajuste significa um aumento de 13,01% em relação a 2014 e é mais que o dobro do primeiro piso instituído em 2008 (R$ 950).
Apesar da valorização do mínimo nos últimos anos, o salário médio do professor ainda  é muito menor do que o de profissionais de mesma formação. Dados da Pnad 2012, presentes no Relatório de Observação sobre as Desigualdades na Escolarização do Brasil, apontam que em média o docente de educação básica ganha o equivalente a 51% dos salários de outros profissionais. 
Uma das metas previstas no Plano Nacional de Educação, assinado em 2014, estabelece prazo de seis anos para equiparação do salário dos professores ao dos demais profissionais com escolaridade equivalente.
"A lei teve um impacto bastante positivo de instituir um valor mínimo nacional. Mas, ainda que com todos os reajustes, ele ainda não é um valor expressivo para tornar a carreira do magistério atraente", indica a professora Maria Dilnéia Espíndola Fernandes, pesquisadora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. 
Tempo para planejar aula
Além do valor ser considerado baixo, muitas redes municipais e estaduais ainda não cumprem a lei, que indica o vencimento mínimo sem benefícios e um terço da jornada fora de sala de aula, afirma Roberto Leão, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).
De acordo com levantamento da CNTE feito em maio de 2014, em ao menos oito das 27 redes estaduais os professores não tinham um terço do seu tempo dedicado apenas a planejamento.
"Uma questão tão importante quanto o piso é a hora-atividade, um terço do tempo do professor deve ser para preparar aula, estudar, ter contato com a comunidade. Se a rede paga o piso e não dá esse tempo para o professor, está pagando menos do que isso. Força os professores a trabalhar em outros horários sem receber por isso", comenta Juca Gil, pesquisador da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
Redes pedem ajuda da União para pagar piso
Desde 2008, redes municipais e estaduais pedem mudança da regra de reajuste e contribuição da União para pagar o piso dos professores.
Em 2009, os governadores de Mato Grosso do Sul, Goiás, Piauí, Rio Grande do Sul, Roraima e Santa Catarina entraram com uma ação direta de inconstitucionalidade contra a lei do Piso, que foi negada pelo Supremo Tribunal Federal. 
Municípios e Estados que não cumprem o piso, como o Rio Grande do Sul, pedem complementação da União para alcançarem o valor do pagamento mínimo dos docentes. 
Em nota ao iG, Vieira da Cunha, secretário da Educação do Rio Grande do Sul, reivindica recursos da União. "Todos nós queremos e gostaríamos de dar um reajuste como este, mas, infelizmente, a situação que encontramos nos cofres públicos não nos permite fazê-lo com recursos próprios."
De acordo com o presidente da Confederação Nacional dos Municípios, Paulo Ziulkoski, o novo piso significará, no total, um aumento de cerca de R$ 7 bilhões nos gastos dos municípios. 
"Com certeza, teremos municípios e estados com dificuldade", disse Cleuza Repulho, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). "Precisaremos da regulamentação dos royalties do petróleo e do PNE em funcionamento para garantir novos recusos. A arrecadação dos Estados e municípios foi menor que a esperada", acrescentou. 
Segundo Cleuza, a entidade voltará a se reunir com o ministro até o fim do mês para cobrar maior participação da União nos gastos dos entes federativos com educação. Também pedirá a retomada do grupo de trabalho para revisão do reajuste do piso.
* Com informações da Agência Brasil

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Brasil desperdiça um dia de aula por semana

Alunos brasileiros perdem em média um dia de aula por semana por conta de desperdício de tempo em sala de aula, gasto com atrasos, excesso de tarefas burocráticas (fazer chamada, limpar a lousa e distribuir trabalhos) e em aulas mal preparadas pelo professor - tempo este que deixa de ser gasto com o ensino de conteúdo.

DESPERDÍCIO

Essa foi uma das principais conclusões de um estudo recém-lançado pelo Banco Mundial que analisou o trabalho de professores na América Latina e seu impacto sobre a qualidade do aprendizado, a formação dos alunos e o desempenho desses países em rankings internacionais de educação.
A pesquisadora Barbara Bruns, uma das autoras do estudo, lembra que o tempo de interação entre aluno e professor é o momento para qual se destinam, em última instância, todos os investimentos em educação. "Nada desse investimento terá impacto na melhoria do aprendizado, a não ser que impacte sobre o que ocorre na sala de aula", diz ela.
O Banco Mundial avaliou 15,6 mil salas de aula, mais da metade delas no Brasil (classes dos ensinos fundamental e médio em MG, PE e RJ), e calcula que, em média, apenas 64% do tempo da classe seja usado para transmissão de conteúdo, 20 pontos percentuais abaixo de padrões internacionais. Confira a entrevista que Bruns, estudiosa da educação brasileira há 20 anos, concedeu por telefone à BBC Brasil:
BBC Brasil - O fato de um tempo tão significativo de aula ser perdido ajuda a explicar o desempenho abaixo da média dos países latino-americanos em avaliações internacionais?
Barbara Bruns - Sim, definitivamente é um fator. Em escolas no leste da Ásia, Japão, Cingapura, Finlândia e Alemanha, você não vê professores chegarem à sala de aula sem um material pronto, sem essa percepção de que o tempo precisa ser usado para ensinar e manter os alunos engajados, algo crucial para o aprendizado. E com frequência nas salas de aula da América Latina parece haver uma falta de organização por parte do professor.
Não parece haver a percepção da limitação do tempo e do que economistas chamam de custo de oportunidade de não usar esse tempo para o ensino. E o tempo entre alunos e professores na sala de aula é o ponto em que culminam todos os investimentos em educação: gastos com salários dos professores, com a formulação do currículo escolar, infraestrutura, material, gerenciamento. Nada desse investimento terá impacto na melhoria do aprendizado, a não ser que impacte no que ocorre na sala de aula. Vemos que na América Latina muitos países gastam uma proporção alta de seu PIB na educação, e não estão obtendo resultados porque esses investimentos não estão sendo usados (para aprimorar) o momento que os professores têm com os alunos.
Se professores estão perdendo 20% do tempo de instrução com os estudantes, é como dizer que estão sendo perdidos 20% dos investimentos em educação, porque não estão sendo usados para o ensino.

BBC Brasil - Como resolver isso?

Bruns - Primeiro, mudar a forma como o professor é preparado antes de entrar ao sistema de ensino. Na América Latina, há muito pouca ênfase (nos cursos preparatórios) sobre como gerenciar uma sala de aula, como ser um professor eficiente. Ouço com frequência de ministros e autoridades: as faculdades de pedagogia falam muito de filosofia, história da educação, das disciplinas (do currículo), mas muito pouco sobre a prática do ensino. Fazendo uma analogia com a medicina, ninguém ia querer um médico que fosse treinado apenas em história da medicina e em questões teóricas. Médicos passam vários anos aprendendo como lidar com pacientes reais. Os professores precisam dessa mesma oportunidade de praticar.
E o que vemos em sistemas educacionais de alta performance, desde Cuba – que tem boa tradição de treinamento de professores – ao leste da Ásia e ao norte da Europa, é que professores em treinamento passam muito tempo observando outros professores e sendo orientados. Isso quase não ocorre na América Latina.
Outra coisa que precisa mudar é o apoio a professores que já estão em sala de aula. Eles precisam receber "feedback" sobre sua performance, ver bons exemplos e ser estimulados a compartilhar conhecimento. O Rio está fazendo isso no Ginásio Experimental Carioca (projeto que traz mudanças em gestão e currículo escolar nos anos finais do ensino fundamental da cidade), mudando o calendário escolar para criar momentos em que os professores se reúnem para trabalhar juntos; ou colocando professores novos para observar os melhores e mais experientes. Uma das descobertas mais importantes e surpreendentes de nossa pesquisa é que, dentro de uma mesma escola, há grande variação na forma como os professores ensinam – desde o professor excelente até o que é muito pouco eficiente. Por isso, é preciso encontrar formas de estimular os professores a trabalhar juntos na escola, como fazem no Japão e na Finlândia.
O Banco Mundial tem um projeto com a Secretaria de Educação do Ceará para criar uma comunidade de aprendizado dentro de cada escola. Daqui a um ano saberemos que tipo de impacto isso terá (no ensino) de 350 escolas.
BBC Brasil - A preparação de professores é um dos maiores desafios educacionais da América Latina?
Bruns - Uma das estratégias mais importantes de curto prazo na região deve ser o treinamento de professores para que eles usem o tempo de aula de forma mais eficiente e, além disso, mantenham os estudantes engajados. Ao observar as salas de aula, descobrimos que, mesmo enquanto os professores estão ensinando, metade do tempo eles não conseguem manter os alunos focados no conteúdo. Víamos os estudantes dormindo, digitando no celular, conversando entre si, olhando pela janela.
E isso jamais seria permitido pelos professores do leste asiático, por exemplo – eles estariam dando um jeito de fazer com que todos estivessem engajados. Sabemos que, para aprender, os estudantes têm de estar engajados. No longo prazo, porém, o desafio é atrair um novo tipo de profissional à carreira de professor: fazer com que ela seja uma carreira atraente para os formandos de melhor performance (acadêmica), como acontece na Finlândia e Cingapura. Daí ficará muito mais fácil obter professores excelentes. Já na América Latina e nos EUA, a profissão ficou tão degradada que os professores acabam sendo recrutados entre estudantes de pior performance. Ou seja, é necessário criar incentivos para que pessoas com bom desempenho escolham a carreira.
E também acho que, quanto aos aumentos salariais – e há muitas evidências de que os salários dos professores precisam aumentar para atrair pessoas competentes -, eles devem ocorrer de forma diferenciada (de acordo com o desempenho). Não pode ser que professores bons e professores ruins ganhem a mesma coisa. É preciso criar incentivos para que as pessoas trabalhem melhor e para que os mais inteligentes entrem na profissão. Na América Latina, a maioria das promoções de carreira é com base em tempo de casa, em vez de desempenho. Então em alguns casos, dois professores ganham o mesmo salário, mas um faz um trabalho excelente e outro não faz nada.
A cidade de Washington fez uma grande reforma educacional, estabelecendo claros parâmetros para a excelência de professores e avaliando professores segundo esses parâmetros. Os que não os cumprissem eram demitidos ou tinham um ano para melhorar seu desempenho. Já os excelentes tiveram seus salários dobrados.
Passados quatro anos, mesmo em meio a polêmicas, os professores gostaram (do projeto), e o desempenho dos alunos de Washington passou a estar entre os melhores do país. Mas é bom acrescentar que o Brasil vive um momento empolgante: muitos secretários de educação e prefeitos querem fazer mudanças. Vemos diversas experimentações e inovações promissoras pelo país. Se conseguirmos medir esses experimentos, teremos (armas) poderosas. Nos 20 anos que estudo o Brasil, pude ver muitos avanços. Mas obviamente há muito a melhorar.

85% dos brasileiros acham que professores são pouco valorizados, diz pesquisa

Para entrevistados, valorização do professor e segurança são os fatores mais importantes para a qualidade de ensino









O professor brasileiro é menos valorizado pelo governo do que deveria para 85% dos brasileiros. Para 76%, a profissão também é menos valorizada do que deveria pela população. Os dados são da pesquisa "A Educação e os Profissionais da Educação", feita pelo Data Popular e divulgada neste sábado (22). 
O levantamento, feito a pedido da Confederação Nacional dos Trabalhadores de Educação (CNTE), entrevistou 3.000 pessoas de todo o País. 
As escolas públicas do país estão longe de ter uma educação de qualidade, segundo a opinião de 59% dos entrevistados. Apenas 6% consideraram a educação da rede pública boa. Outros 33% acham que as escolas estão perto de oferecer uma boa educação. 
Falta de segurança é grande problema da escola
Perguntados qual era o principal problema da educação pública no País, 28% citou a falta de segurança. A presença de alunos desrespeitosos apareceu em 15% das entrevistas. Para 9% da população, professores motivados e baixos salários dos docentes são o grande problema educacional.
Na pesquisa, a segurança e a valorização profissional apareceram como os fatores mais importantes para que uma escola tenha o ensino de qualidade.

Escola tem de mudar para reduzir desigualdades sociais, indica Unesco

Ensino de competências deve substituir foco do professor em conteúdo. Tecnologias em sala de aula precisam ser usadas para desafiar estudantes a criar seu método de aprendizado

"Se a escola não mudar, vamos colaborar para o aumento das desigualdades sociais", afirmou Francesc Pedró, chefe da Divisão de Políticas Educacionais da Unesco, durante a apresentação do estudo "Tecnologias para a Transformação da Educação" em São Paulo na última terça-feira (25).
O estudo, que reúne estratégias para o uso da tecnologia, aponta a qualidade da educação com equidade como o desafio dos países da América Latina para os próximos anos.
"Nos últimos 15 anos, tentamos garantir o acesso à educação. Agora precisamos pensar em como garantir o acesso com qualidade e equidade, para que a educação possa precisamente ajudar os estudantes a superar barreiras sociais", afirma Pedró. "Vemos a tecnologia como uma janela de oportunidade."
Entre os 65 países avaliados no último Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), os estudantes de países da América Latina apareceram nas últimas posições. O Brasil ficou em 55° lugar no ranking de leitura, 58° no de matemática e 59° no de ciências. O Pisa mostrou ainda que 15,7% da variação de performance entre estudantes brasileiros se deve a diferenças socioeconômicas.








Currículos devem focar em habilidades e não em conteúdos
Para melhorar a qualidade da educação, alguns são os eixos apontados pelo documento para transformar os projetos educacionais. Pedró destaca que há um consenso sobre a importância do desenvolvimento de habilidades e não mais do ensino de conteúdos.
"O professor deve deixar de ser aquela figura que passa conhecimentos para ser aquele que desperta curiosidades e dá problemas para que o aluno encontre soluções de maneira ativa e cooperativa”, indica.
Assim, as tecnologias devem ser usadas para a criação de um ambiente de aprendizagem que fomente o desenvolvimento de habilidades, com o acesso à internet, o uso de câmeras, telefones e outros dispositivos tecnológicos como ferramentas para a pesquisa e para a criação de produtos educacionais.
O representante da Unesco destaca que esses aparelhos e tecnologias já são usados por grande parte dos estudantes e professores da América Latina, no entanto eles ainda não foram integrados ao sistema de ensino.
"Com as tecnologias de comunicação, os estudantes resolvem exercícios de maneira cooperativa mesmo quando o professor pensou a tarefa de forma individual", comenta Pedró, ressaltando a necessidade de mudança na forma como são dadas aulas e tarefas escolares.
Troca de experiências de professores é essencial
“A OCDE vê a inovação com um enfoque sistêmico, além da tecnologia, que passa pela inovação na gestão da escola, no modo de dar aulas, na cooperação dos professores, na pesquisa em educação, entre outras coisas”, aponta Carlos González-Sancho, analista da direção de educação da OCDE.
O analista destaca que, apesar de diversas experiências novas serem adotadas por professores de todo o mundo, há poucos dados sobre práticas inovadoras na educação, o que dificulta sua avaliação e sua multiplicação. González-Sancho afirma ainda que o trabalho cooperativo e a troca de experiências entre professores é essencial para a melhora em escala dos resultados educacionais.
“A inovação quando acontece ilhada é pouco efetiva. Para que a inovação possa se disseminar é importante criar estruturas de redes que fomentem a partilha e a troca entre professores. Colocar em contato desde logo os docentes que estão fazendo projetos inovadores é um componente essencial para dar um salto em escala.”
    FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2014-11-27/escola-tem-de-mudar-para-reduzir-desigualdades-sociais-indica-unesco.html
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